Resistência ou Nada

Resistência ou Nada

Colaboração: Gabriela Cleveston Gelain
Fotos: Arquivo pessoal

Colaboração para a Sirva-se Cultura Alternativa em 05/06/2012: http://sirvase.net/blog/?p=4911

Quem está envolvido na cena independente, sabe que as coisas não surgem simplesmente do nada. É preciso colocar a cara a tapa. É preciso construir. Tem que haver coragem e também estar preparado para receber reclamações de pessoas que na maioria das vezes só sabem… Criticar.

O Guilherme C. G. é deste tipo de pessoal, que além de ter tocado em diversas bandas, organiza eventos como a [A]Mostra dos Independentes de Porto Alegre e edita fanzines como o recém lançado Outono ou Nada, que conta com 40 páginas de entrevistas, matérias, skate, colunas e muitas resenhas.

Durante a tour “Vida Simples Sem Deus” das bandas Cidade Cemitério e Sistema de Mentiras, em abril, aqui no Rio Grande do Sul, aproveitei uma tarde na casa da Júlia (que hospedou parte das bandas) para conversar com Guilherme sobre o fanzine novo dele, o Outono ou Nada.

Abaixo segue a entrevista que fiz com ele sobre os zines e outras coisas que ele fez e vem fazendo.

Antes de falar nos zines, conte um pouco sobre as bandas que tu já participou.

Vixe… Passei por algumas bandas nestes últimos anos. Algumas até tiveram um certo destaque no meio underground, mas a maioria foi e continua sendo desconhecida.

Minha primeira banda foi a Kustódia, em 1998. A banda já existia desde 1997 e me chamaram um ano depois. No começo os caras tocavam covers de bandas punk e metal, daí quando entrei começamos a fazer músicas próprias. Inicialmente os sons eram numa linha punk, depois aceleramos para hardcore e quando a banda acabou, em 2001, tocávamos crust beirando o grindcore.

Neste meio tempo surgiu a Instantâneo Momento de Loucura (2000-2003), depois a Cü Sujo voltou (2002-2011) e os caras me chamaram para cantar, coloquei um projeto chamado Melhoramentos em prática (2003-2005), toquei na The Trial (2003-2006), alguns meses na 3 Real (2004), teve a Loorex (2004-2009) também, montei a Change Your Life (2009-2010 – 2011) e por último estava na Out of Reason (2010-2011), banda muito foda dos anos 90 que voltou a ativa e os caras me intimaram para tocar com eles, como era fã da banda, não pensei duas vezes. Isso tudo sem contar uma série de bandas e projetos que não passaram de alguns ensaios e as vezes que quebrei galho tocando em shows.

Por uma séria de motivos eu desanimei desse negócio de ter bandas e tocar aqui em Porto Alegre, então no ano passado eu larguei tudo de mão, mas continuo colando em shows e ajudando sempre que posso.

Lembra quando foi o teu primeiro contato com fanzine? Quando começou a editar os teus próprios fanzines?

Bah… Sinceramente eu não me lembro. No colégio eu ajudava no jornalzinho do Grêmio Estudantil, aquilo era quase um fanzine, tinha até parte de bandas do colégio e tudo mais.  AH! Um dos primeiros que parou na minha mão foi o HC Scene #3, a partir dele fiz muitos contatos, conheci bandas e pessoas.

Durante um bom tempo contribui nas publicações de amigos fazendo quadrinhos ou escrevendo textos, mas me considero um zineiro novo. Comecei a editar meus próprios fanzines só em 2009 com o Seja Você Mesmo, depois veio o Conversas Paralelas e agora o Outono ou Nada.

Quando surgiu a ideia de fazer o Outono ou Nada? Há muito tempo tu não publicava outro fanzine?

Tenho feito fanzines desde 2009 sem parar. Fiz primeiro o Seja Você Mesmo, daí eu cansei dele, estava sem tempo e tal, comecei então a fazer o Conversas Paralelas que é um fanzine pessoal, com recortes, textos, música, fotos, várias coisas e que eu ainda sigo editando. No final do ano passado eu tive a ideia de voltar com o Seja Você Mesmo, com a proposta dele e não propriamente com o fanzine. Inicialmente eu até ia chamar o Outono ou Nada de Seja Você Mesmo, mas cheguei a conclusão de que não seria exatamente a mesma coisa.

O Seja Você Mesmo era uma espécie de “plágio” da revista Veja, mas voltado para o underground. Tinha entrevistas em páginas amarelas e a diagramação toda semelhante a da revista… Saíram três edições.

Então pensei: “Não, vou fazer outro fanzine, também com resenhas, entrevistas, releases, bandas novas, mas vou colocar outro nome”. Eu fiquei me enrolando e o nome Outono ou Nada “surgiu” na semana em que fui fazer as primeiras cópias do fanzine, em março deste ano.

De onde veio essa ideia de inserir o skate como tema do teu fanzine novo, o Outono ou Nada?

Cara, foi meio sem querer, a ideia era fazer um fanzine para agregar várias coisas e o skate tava junto, é algo “secundário” no fanzine, mais pela estética, talvez, não foi algo proposital, tipo, “vou fazer um zine voltado para o skate”. Gosto de pegar o carrinho, subir em cima e dar umas embaladas, é algo com a qual de certa forma me identifico.

Tu tens noção da tiragem que tu teve deste fanzine em relação aos outros?

É uma coisa que eu não consigo controlar, pois sempre faço aos poucos as cópias dos fanzines que edito. Faz umas duas ou três semanas que saiu o Outono ou Nada e eu fiz a primeira tiragem de 30 cópias, depois fiz mais 50 e há pouco tempo mais 100… Assim vou indo… Como este ficou um fanzine muito grosso, eu tenho que vender ele, diferente dos outros zines que eu fiz e que eu dava para a galera. O Outono ou Nada tem 40 páginas, ou seja, eu tenho um gasto muito grande com ele, eu não posso investir todo o meu salário em fanzines (risos), infelizmente eu tenho que vender ele e, conforme eu vou vendendo, vou fazendo mais cópias.

Quando saí a próxima edição?

Sem previsão! Minha ideia era fazer só essa primeira, pelo compromisso que eu já tinha assumido com as bandas, estava bem desmotivado, mas agora com o fanzine em mãos e distribuindo para o pessoal, tive um retorno muito positivo, inclusive um pessoal já querendo patrocinar outra edição. Então já estou começando a pensar em dar continuidade a este projeto, mas ainda sem data de lançamento. Enquanto não vem o próximo número, vou seguir distribuindo o primeiro… é capaz de saírem 300 ou mais cópias no total.

Eu queria saber como foi feita a seção de colunas no início ali do zine, como tu fez? Tu sugere o tema?

A verdade é que as pessoas não sabem que são colunistas do fanzine.

É sério?(risos)

Sério! (risos) Assim, são quatro colunistas: um é o Dieguis, peguei um texto dele que estava no encarte de um disco do Jersey Killer que acho que não vai sair, então traduzi, já que estava em espanhol, e publiquei sem avisar ele. Sei que não vai se importar, inclusive ficará superfeliz; o Jeison faz o fanzine Café Sem Açúcar e foi do nada “Estou fazendo um zine e vai ter colunas, foi a última parte do fanzine que criei e falta isso para fechar”, então ele me enviou um texto que tinha sobrando; o Sano estava conversando comigo sobre a volta dele para Lajeado e me escreveu aquilo que foi publicado na coluna. Rolou tipo “Posso usar esta parte em uma coluna do fanzine? Gostei muito, posso usar?” e ele aceitou; o Alan é o quarto colunista desta edição, achei um texto dele na internet, traduzi e coloquei no fanzine.

Ou seja, não foi nada pensado, não sugeri uma temática, peguei materiais que apareciam na minha frente. O fanzine estava quase pronto, se eu fosse pedir para as pessoas escreverem algo demoraria ainda mais. Talvez para o próximo número eu pense em um tema específico.

E o contato com o Carlos Dias (Polara, Againe), que fez a arte da capa do Outono ou Nada, como aconteceu?

Já falava com o Carlinhos pela internet há um tempo e nos conhecemos pessoalmente em 2004, logo que me mudei para Porto Alegre. Sempre admirei o trabalho dele, os desenhos e as bandas. Então vira e mexe nos trombamos pelo mundão.

Uma loja de discos aqui de Porto Alegre, a já extinta Fuzz Discos, fez uma troca de desenhos dele. Ele fez vários desenhos, colou nas paredes da loja e tu ia lá, fazia um desenho ou deixava um fanzine e trocava por uma arte dele. Eu peguei os dois que estão no fanzine. A minha ideia inicial era colocar só o desenho que está dentro do fanzine. Comentei com ele sobre a ideia e ele curtiu, total apoio. Depois tive um insight de também colocar um release dele com uma foto e talz. O outro desenho que peguei na troca também era legal – e qual não é, né?, aproveitei e usei ele na capa, para relacionar com parte do conteúdo do fanzine. Poderia ter sido a foto de alguma das bandas entrevistadas, mas curti mais a ideia do desenho.

O release tu retirou de onde?

Retirei do site dele que, por incrível que pareça, saiu do ar na semana que o fanzine foi lançado. Talvez agora a única fonte do release do Carlinhos seja o Outono ou Nada! (risos)

Tu tem recebido muitos zines este ano? Antigamente, como tu fazia para ter acesso aos fanzines?

Já faz mais de 10 anos que recebo fanzines e este ano não está sendo diferente, muita gente fazendo e distribuindo.

A maioria eu recebia em casa sem pedir. O pessoal me mandava por carta ou então eu ia em um show, tinha ali fanzine, eu pegava, tinha pessoal distribuindo e essas coisas. Pelo que lembro foram poucas as vezes que tive a pro atividade de escrever para alguém pedindo, simplesmente eles iam chegando na minha mão e eu fui colecionando!

Agora com o Outono ou Nada em mãos acaba rolando aquele esquema de troca. Eu mando o meu fanzine, tu me manda o teu e assim vai. Isso já acontecia com o Conversas Paralelas, o Seja Você Mesmo também foi assim e com o Outono ou Nada está começando também. Quando o pessoal me escreve pedindo para adquiri o zine sempre dou a opção da troca, se não é R$2 em mãos ou R$5 com a postagem.

E tu tem recebido bastante pedido com pouco tempo da publicação do Outono ou Nada?

Sim! Estes dias até uma professora me mandou um e-mail, me emocionei pra caramba. Ela ficou sabendo não sei como que tinha saído o Outono ou Nada, disse que é professora e trabalha com fanzines em sala de aula. Neste caso não tive nem cara de pau de cobrar, me senti muito honrado em poder contribuir de alguma forma com o trabalho dela. Mandei também o Conversas Paralelas junto!

As pessoas têm um pouco de receio às vezes, de pedir zines, não sei o porquê. Sabe que tem saído na mídia até matéria sobre fanzines… Vi uma na globo.com estes dias…

Percebo que aqui em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul como um todo está surgindo uma nova geração de fanzineiros, inclusive eu me incluo nela. Temos o fanzine que tu faz com a Japa, um pessoal como o Jeison, o Marquinhos e a Giselle que estão tirando os textos das gavetas e colocando no papel, o Marcel defendendo a causa palestina e até o Insekto voltou a fanzinar! Acho que o pessoal está cansando um pouco dessa história de viver apenas uma realidade virtual e resolveu voltar para o papel.

Mesmo nos shows, eu ando vendo as banquinhas recheadas!

Isso é outra coisa que parece estar voltando por aqui. Quando eu comecei a fazer fanzines, em 2009, não se via mais eles nas banquinhas que montavam em shows, ao menos por aqui. Eu ia e largava na mão das pessoas, se não ninguém pegava. Era algo que estava morto. Agora está voltando a ter.

Talvez porque algumas bandas de outros estados estejam vindo tocar aqui no Rio Grande do Sul.. um intercâmbio de contatos.

Também. Uma coisa leva a outra. Tem um pessoal novo fazendo fanzines e é óbvio que tu não vai deixar o teu material engavetado, tu vai querer divulgar ele, e qual o melhor lugar isso? Show. É assim com os discos também.

Realmente agora vemos mais fanzines circulando por aqui. Qual foi o critério que tu adotou para escolha dos que foram resenhados no Outono ou Nada?

Para o Outono ou Nada eu resenhei os mais recentes que eu tinha naquele momento, deixei muito material de fora. Infelizmente tive que estabelecer esse critério, eu não tinha como falar sobre todo material que acumulei nestes três anos de intervalo entre o Seja Você Mesmo e o Outono ou Nada. Caso contrário seria praticamente um Anuário! (risos)

Falando em Anuário, temos o da Ugra Press. Tu contribuiu de alguma forma com essa publicação? Mandou material para eles?

O Douglas da Ugra Press me escreveu pedindo se haviam alguns eventos aqui no Rio Grande do Sul sobre fanzines. A [A]mostra dos Independentes não é um evento exclusivo de fanzines, mas mandei e ele ficou de publicar neste segundo anuário que está para sair.

O Seja Você Mesmo e o Conversas Paralelas já marcam presença no Anuário da Ugra Press, mas ainda não mandei o Outono ou Nada para eles. Espero reunir vários fanzines e mando tudo junto num único pacote para eles.

Como surgiu a ideia da [A]Mostra dos Independentes?

Eu percebia que os shows independentes aqui de Porto Alegre se resumiam em um encontro de pessoas com certas afinidades para curtir um som e nada mais. Sei lá, acho que os shows não precisam ser apenas isso, é legal contar também com um espaço para discussão e exposições de outras formas de arte. Foi nessa pilha que surgiu a [A]Mostra dos Independentes de Porto Alegre.

Era um desejo que eu tinha há um bom tempo, mas consegui colocar em prática só em 2010. Nesta época a cidade estava com poucos espaços para shows e a solução foi começar a usar o estúdio de um amigo para isso. Realizávamos tipo, um show por mês, nessa média, então lancei a ideia de fazer um evento de três dias com diversas atrações e ele abraçou a causa junto comigo. Infelizmente alguns meses depois ele teve que fechar o estúdio, mas mesmo assim segui com a ideia da [A]Mostra dos Independentes.

Conta com mais alguém na organização da [A]Mostra dos Independentes?

Conto sempre com o apoio de um ou mais amigos e também das atrações do evento, que acabam curtindo a ideia e ajudam como podem.

Tem alguma previsão para a próxima [A]mostra dos Independentes de Porto Alegre?

A ideia do evento é ser anual. As duas primeiras edições foram em maio de 2010 e 2011. A primeira foram três dias no Studio Aliens. Ano passado, com o fechamento deste lugar eu fiz só um dia no Entre Bar, mas foi cheio de bandas e com muitas outras atrações. Para este ano ainda estou decidindo o formato, o prazo está curto e eu tenho que correr atrás disso. A ideia é fazer em junho.

Fala o que quiser aí, o espaço é teu (: !

Queria agradecer o interesse e a oportunidade de falar um pouco sobre o Outono ou Nada. Quem tiver interesse em conhecer a publicação é só mandar um e-mail para outonoounada@gmail.com. Valeu!

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