Câmera Lenta e uma conversa rápida (com Cristiano Onofre)

Colaboração para a Sirva-se Cultura Alternativa 27/07/12 em: http://sirvase.net/blog/?p=5343

“Três contos, situações horríveis e personagens reais até demais” é a frase de contracapa do livro intitulado “Câmera Lenta” de Cristiano Onofre. Lançado e distribuído de maneira totalmente independente, a publicação é uma coletânea em formato de bolso, que conta com três contos escritos entre 2008 e 2010, o título grande negritado na capa sem ilustração, cor de papel reciclado, 135 páginas e uma linguagem em grande parte coloquial. Dedicado à anarquia, o livro reflete um pouco o dia-a-dia bastante violento e doentio de personagens da nossa sociedade “civilizada”.

Sempre participando da cena punk no Rio de Janeiro, o autor carioca de 21 anos é formado em Letras, pós-graduando em Estudos Literários, professor, desenhista, fanzineiro e músico (banda Desistä).

Cristiano costuma deixar bem claro que o estudo e o trabalho são bem secundários em sua vida e apesar de gostar da profissão como professor, a lição que busca passar nos bate-papos realizados durante o lançamento de “Câmera Lenta” é outra: ressaltar a importância da cultura marginal e a constante luta pela liberdade de expressão. Também acredita que muitos jovens têm receio de colocar a cara a tapa e publicar o que escrevem, seja em formato de zine ou livro, embora gostem de suas produções. E é isso que ele diz estar fazendo: colocando a cara a tapa num rolê que passou por algumas cidades Brasil afora e esteve recentemente no Rio Grande do Sul junto com uma mini-tour de inverno da banda punk Deaf Kids, passando por algumas cidades do estado, Cristiano acompanha o rolê lançando seu livro e realizando um bate-papo entre os shows sobre arte marginal.

A literatura marginal não foi feita para agradar, ela é desenvolvida justamente com o objetivo de chocar o leitor e assim criar uma reflexão e formar um pensamento crítico. O zine “A arte de comprar-te”, por exemplo, tem como tema a mercantilização da arte em um momento onde as bandas punks do Rio de Janeiro muitas vezes precisavam vender ingressos para poder tocar. Não concordando com a situação, ele resolveu escrever e fez seu público leitor refletir sobre o momento na cena.

Cristiano acompanhou esse role lançando “Câmera Lenta”, além de realizar um bate-papo entre os shows sobre arte marginal. Estive em Santa Cruz no primeiro dia da turnê e tive uma conversa “rápida” com o cara, e aqui você conhece um pouco mais da obra e do autor.

Tu já tinha há um bom tempo, contato com a cultura independente, os fanzines… De onde despertou a ideia de fazer o ‘Câmera Lenta’?

Eu sempre fiz muito fanzine. Desde muito molecão, eu fazia zine, desde o meu primeiro contato com hardcore/punk eu já tive também contato com eles, quando eu ia para casa lendo algum fanzine que alguma galera fazia, que eu comprava, eles entregavam, encarte de banda…então, assim eu comecei a ter contato com essa cultura e me interessar ainda mais, por ser uma cultura marginal, uma cultura punk. Sempre lancei muito fanzine porque sempre gostei muito de escrever.

Tu começou isso com que idade?

Eu devia ter uns treze anos, sei lá. Molecasso.

Como surgiu essa ideia de acompanhar a tour da Deaf Kids para lançar o teu livro?

É um modelo que eu tô percebendo que é bem novo e como eu sempre tive metido nesse lance de punk rock, não tinha porque eu fazer em outro circuito,sabe? O que eu aprendi fazendo tour com banda, o que eu aprendi organizando show na minha cidade, eu podia usar o modelo em que eu já estava inserido, para lançar o meu livro.

E como no passado, através de banda punk e de tudo isso, eu já tinha fechado um círculo de amizades e contatos no Brasil inteiro, agora eu uso estes contatos para marcar o lançamento do livro. No nordeste, quando eu fui para lá lançar o Câmera Lenta, foi com a galera do movimento punk que eu conhecia, do underground, do rolê. Lancei em show, em ocupação. E isso é legal porque vai criando um interesse em outras pessoas que não são do meio. Às vezes pinta algum jornal, casa de cultura.

Acaba divulgando as bandas ao mesmo tempo.

Aproveita a oportunidade e anda junto, não tem porque não andar. A turnê toda acaba em lançar o livro em locais do tipo ocupação até lançar o livro num auditório de uma casa de cultura, mostras de arte, programas de televisão, em eventos de zine. Acaba transitando bastante entre os dois polos.

Quais eram os teus fanzines?

Eu me lembro de um que talvez ainda esteja em circulação, é o “Arte de Comprar-Te”, que tem para download. Tem um que é chamado “Algum Dia na Cidade Esquecida” e uns outros que eram esporádicos, escrevia, mas tinha pouca tiragem. Eram zines mais políticos, mas estes são mais pessoais. “O Arte de Comprar-Te” fala um pouco sobre a transformação da arte em consumo, em mercado. Eu escrevia em uma época no Rio de Janeiro em que rolava muito show com bandas do rolê punk , mas a banda tinha que vender ingresso para poder tocar, ou seja, era uma mercantilização da arte que eu achava errado, naquela época e eu achei que seria interessante fazer um zine para falar sobre isso, saca?

Como foi a repercussão do pessoal que leu teu zine questionando a própria cena local?

Acredito que teve uma repercussão sim, porque ele circulou bastante, chegou até a ir para Portugal, uns lances assim. Mandei bastante para Maceió também, inclusive, que eu lembro, na época. Teve uma circulação legal, um retorno bacana, as pessoas curtiram. Muitas se identificavam com aquela ideia, outras passaram a pensar daquela forma depois de ler. É legal que esse retorno vai te dando interesse para continuar fazendo, né? O retorno que se tem.

Daí, chegou um momento em que tu pensou em lançar um livro e separou estes contos de 2008 a 2010.

Como eu sempre gostei muito de escrever, o cara que gosta de escrever… por mais legal que seja lançar um zine, eu gosto e lanço até hoje, mas para quem curte escrever, ter um livro não sei se é realizar um sonho, mas o livro… tem um charme e tudo mais. E acaba criando uma vontade bem grande de ter um livro publicado. Por mais que tu tenha um fanzine para download também na internet, ter um livro publicado é uma outra situação, você cria. Eu lancei agora em março, estou lançando ele em vários lugares, nordeste, sudeste, vou voltar para Curitiba lançar lá também no final desta tour.

Como está sendo a repercussão do livro nestes lançamentos?

Tem uma galera que já leu. Como ele é um livro pequeno, as pessoas leem rápido. A Tina foi ela que organizou o lançamento do “Câmera Lenta” no Fanzinada em São Paulo, além do lançamento do documentário do Marcio Sno. E foi foda. Mas por enquanto eu tô fazendo o lançamento sozinho, eu levo uma sacola com os livros. E nessa tour do sul eu consegui vender o centésimo livro, para mim já é um sucesso , sabe? De mão em mão consegui vender o livro número 100.

E sobre a ficção dos contos, porque a galera compara ele ao ‘Misto Quente’do Bukowski?

É, não é baseado neste livro mas acaba que a galera começa a comparar, sempre rola um tipo de comparação. Eu acho que as pessoas sempre querem ter um grau de comparação com alguma coisa né? Eu não considero como inspiração para o livro, assim. Até porque não me importo, não ligo muito para isso. Na real é até uma honra, ser comparado com tais autores. Já me disseram também que copiei dos caras. Aí eu respondo: “Copiei mesmo, foda-se, se é isso então que tu acha.” Na real é porque acho que o estilo é muito parecido, até porque fala de coisas semelhantes. São pessoas sofrendo influência da sociedade e se revoltando, ficando malucas com algumas coisas que acontecem na vida e também por ser uma literatura violenta. Literatura marginal é chocante. Não tá ali para agradar, tá ali para chocar e através disso criar uma reflexão.

E como tu acabou selecionando estes contos, tem um porquê específico?

Não, dos contos que estão no livro, só um já tinha sido publicado anteriormente. Os outros dois são inéditos. Os outros eu escrevi para lançar de alguma forma, não sabendo ainda se seria em formato de zine ou de livro. Não na internet, queria uma publicação mais exclusiva.

Tu não inseriu ilustrações no ‘Câmera Lenta’ embora faça quadrinhos. Não pensa em publicar algo para uma próxima edição?

Não, este não tem ilustrações. Então, me fizeram esta pergunta ontem, eu tô falando isso agora, não tinha falado para ninguém. Estou pensando para o próximo talvez lançar uns quadrinhos. Não sei ainda.

Neste tour estou expondo os desenhos, eu não crio muito vínculo com as coisas, às vezes até dou os desenhos se as pessoas gostam muito.

Este bate-papo que tu está fazendo durante os shows da tour da Deaf Kids, como funciona?

O bate-papo em si não é para falar do lançamento do livro e sim da maneira como ele é publicado. Como eu falei, é um livro independente. A minha preocupação maior é fazer com que as pessoas tenham vontade de lançarem também trabalhos independentes. A minha intenção nem é vender livro. Às vezes as pessoas veem que o cara é escritor e eu sou só o leitor, cria uma hierarquização da coisa.  E às vezes o cara acha que não pode fazer aquilo. Eu fiz um lançamento em uma cidade e vieram dois meninos, um disse que adorava escrever mas não tinha coragem de lançar um livro,não tinha material suficiente e o amigo dele disse que adorava escrever poesia. Aí eu falei para eles: “Por que vocês não se juntam e fazem um zine?”. Eles falaram “Ah, pode crer”. Ou seja, você está mostrando para as pessoas que elas também são capazes de fazerem. E eu acho que tem que colocar a cara a tapa, essa tour sou eu totalmente colocando a cara a tapa.

Quantos livros você trouxe para a tour aqui do sul?

Trouxe 45 livros, porque a gráfica é a Deriva de Porto Alegre, uma editora anarquista. Aproveitei, aí segunda-feira vou conhecer a gráfica (a entrevista foi realizada na sexta-feira, o primeiro show no Rio Grande do Sul). E o motivo de se fazer poucas tiragens para cada viagem que eu faço, é para não ficar acumulando tanto livro. Por exemplo, se eu faço uma viagem com três lançamentos, eu levo em média uns 20 livros para cada cidade, às vezes sai, às vezes não, troco por cd de banda, eu faço assim. Não rola uma preocupação muito financeira com a coisa. É mais para divulgar mesmo.

Quais são Teus autores preferidos que te inspiraram de fato?

Tem o Paulo Lemiski, de Curitiba. Bukowski me inspira… tudo que a gente faz é fruto do que a gente já leu. Acho que a minha maior inspiração mesmo é filme.

Vi que tu pira no Gus Van Sant.  Tu trás alguma inspiração do cinema para o livro?

Aquele zine Um dia na cidade esquecida eu fiz praticamente depois de ver o filme ‘Gummo’, do Harmony Korine! Acho que a inspiração vem de música que tu ouve também.

Que sons tu ouvia na época em que tu escrevia os contos dos livros, tem um setlist inspirador?

Faz tanto tempo que escrevi que não lembro o que ouvia na época. Punk,né? (risos). O que eu ouço sempre. De 2008 até 2010 era muito Fugazi, At The Drive-In, Mars Volta… eu tava nessa pira, nesta época.

Acho que o Fugazi é inspiração para qualquer pessoa que curta o independente de maneira sincera.

Certo, Fugazi é vida! É uma grande influência. Sabe… teve um lançamento que veio uma menina dizendo que queria muito o meu trampo e tava sem grana pra voltar para casa, perguntou se tinha como me dar o livro, se podia depositar depois, mandar pelo correio. Eu perguntei se ela queria realmente o livro e disse que podia ficar, sem problemas.

Como professor, tu tenta inserir a arte marginal dentro da sala de aula?

Sim, claro, tanto é que alguns alunos meus já leram o livro, alguns ficaram meio chocados, outros não. É legal que quando eu vejo alguma faísca em algum aluno que pira em fazer algo no independente, de publicar algo, eu dou uma força. Já fiz trampo de ensinar aluno a fazer zine, sempre que dá eu tento encaixar o que vivo fora da escola para dentro dela. Acho muito importante, saca? Na real a verdadeira escola é a vida.

Queria que tu deixasse algum recado para futuros leitores do ‘Câmera Lenta!’

Quem for ler, caso se interesse de ler é uma publicação independente. Espero que a pessoa enxergue muito mais além da ficção que está ali, da maneira como o negócio é feito, como tudo isso está acontecendo, não achar que é só mais um livro… porque não é só mais um livro. É um livro que foi concebido de uma forma independente e existe uma militância por trás disso.

Para adquirir o Câmera Lenta, entre em contato: cristiano_onofre@hotmail.com

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