Entrevista: Rodrigo (Dead Fish) – 2010.

O Dead Fish tocou em Santa Maria no dia 06/05/2010  no Skato Bar. Antes do show, eu e a Jéssica entrevistamos o Rodrigo Lima (vocalista) para o nosso zine (No Make Up Tips #2). Já que a entrevista ficou só no xerox, vamos disponibilizar aqui alguns conteúdos dos zines anteriores.

(nomakeuptips) Gostaríamos de saber a tua opinião sobre o feminismo, já que o nosso zine (o número um, pelo menos) abordou bastante o assunto.

Rodrigo: Cara, eu moro no bairro mais gay do Brasil… e não querendo relacionar isso diretamente ao feminismo, mas existe uma coisa muito antiquada no feminismo, às vezes até um pouco conservadora, mas no Brasil, hoje em dia, eu não consigo fazer nenhuma revolução de evolução do pensamento masculino. Eu acho que as pessoas pararam no meio do caminho. Você vai para outros países, tipo Alemanha, países civilizados, a coisa é um pouco mais evoluída, assim. Evoluída até no sentido de me insultar um pouco, ser politicamente correto demais, e babaca. Eu, como macho e latino-americano, fico bastante de saco cheio com algumas coisas que são politicamente corretas demais, mas no Brasil a gente não tem isso, na minha vizinhança eu vejo que existe mais respeito, mais tolerância, é um bairro de gays. Não que não exista guerra de classes entre gays, eu que moro em um bairro gay sei que existe muita guerra de classe: gays pobres não são iguais à gays ricos, é sempre uma questão de classe, eu vivo isso diariamente. O feminismo também passa por aí, se você analisar uma mulher negra da periferia, zona sul de São Paulo, é totalmente diferente de uma menina branca, de classe média, que teve a oportunidade de experimentar ser lésbica, dar um passo atrás ou um passo a frente, é uma questão sempre de classe. E eu acho que às vezes as feministas esquecem um pouco disso. E aí que eu acho que mora a parte da fase conservadora do feminismo, ele pode ser feito por meninas brancas de classe média ou quem vê muito o lado da mulher negra, analfabeta, eu acho que é uma grande questão feminista brasileira. O aborto é uma questão que nosso país nem seguiu em discutir em frente com honestidade, é sempre uma questão religiosa como uma questão machista também. A questão do aborto é totalmente feminina, e eu sou totalmente a favor, completamente. Pra mim, o aborto é uma questão de saúde pública. Mas eu estudei na Universidade Federal do Espírito Santo, eu discuti esse assunto no colégio, mas se tu vai analisar uma mulher que está em uma estrutura muito conservadora, é complicado. Então, exige um nível de instrução muito alto e um nível de coragem muito alto, em um país católico e conservador.

(nomakeuptips) Vocês costumam tocar com bastante bandas de mulheres? Em festivais, shows…?

Rodrigo: Menos do que a gente gostaria.
Alyand: Acho uma pena, na década de 90 nós tínhamos uma força maior de bandas femininas, nos últimos anos a gente não tem passado por banda nenhuma.
Rodrigo: Vocês vão ficar com raiva de mim agora… mas as mulheres ainda não conseguiram estarem unidas, não ainda. Eu acho que vocês tem uma questão de territorialidade, eu acho que brigam entre si, mais do que entre a cena hardcore.
Alyand: Talvez essa desunião entre vocês dificultem a formação de mais bandas.

(nomakeuptips) Vocês prezam por coletivos e já correram bastante atrás no começo, o que vocês acham do show daqui organizado por fãs e amigos?

Rodrigo: É um objetivo conquistado, porque quando eu comecei a ter uma banda eu queria fazer uma revolução coletiva. Com o tempo eu fui perdendo isso, na verdade eu já não tenho nenhum senso de coletividade, meu senso de coletividade é quase zero. Mas lá atrás, no começo, era uma coisa que a gente queria muito, e a gente viu que no decorrer dos anos 90 a coisa foi se degringolando, e eu nos últimos 2 anos tenho conseguido perceber que vem uma geração agora que não vai estar tão preocupada com a estética nem em falar de seus próprios sentimentos, vai estar mais preocupada em fazer uma coisa coletiva e discutir a diferença, entendeu? Eu tenho sentido isso, isso vem.
Outro dia, teve um menino dessas bandas que fazem sucesso hoje (os coloridos? risos) “Ah o rock morreu”…putz, o Lobão falou isso em 80 “o rock acabou e blablabla é isso que vai acontecer é o que eu to fazendo que vai acontecer”, NÃO! Tá vindo uma geração que vai ter muito mais necessidade de coletividade, que vai ter muito menos essa codificação internet e vai dar mais valor localmente.

(nomakeuptips) O que tu acha da internet? O que ela trouxe de bom? Antigamente se trocava cartas, tapes, zines…

Rodrigo: Minhas primeiras caras de 1993, elas vinham pra Santa Maria, recebia muitos flyers de Santa Maira, GDE, de todos os caras. Mas isso é um atraso, é conservador dizer que o tempo das cartas era bom. Era bom porque era mais romântico, a gente dava mais valor, pra você conseguir um som era muito mais complicado. Vocês tem um nível de informação muito bom, muito foda, eu gostaria de ter tido, só que vocês não tem o nível de apreço que a gente teve. Aí que essa geração de coletividade, de coletivos, vai recuperar, eu tenho plena certeza que isto vai acontecer, porque ninguém vai suportar mais essa individualização extrema, do extremo, do extremo, do extremo… porque no final das contas você vai ter que sair de casa para comprar o leite, vai ter que sair de casa pra discutir se tem gente fumando crack na sua rua, se tem gente sujando a sua rua, gripe suína, se você vai tomar a vacina ou não. Ainda mais se chegar num nível de individualidade que a sua geração não vai suportar mais e já não deve mais estar suportando.
Você pode ter proximidade na internet, por exemplo, das coisas feministas, o nível de informação da sua geração de mulheres é infinitamente maior do que as mulheres que tem a minha idade, eu tenho 37 anos, é um nível grande, um desnível bem grande. O tempo de vocês não é o meu tempo, e o meu tempo não é o tempo do meu pai, uma década para o meu pai era algo, hoje pra vocês 5 anos já é algo enorme.

(nomakeuptips) No formspring de vocês, você respondeu que achavam que aqui (Santa Maria) era mais metal, fora a TSF. Como vocês conheceram  a TSF e gostam da banda?

Rodrigo: O Tijolo Seis Furos, eu tinha um flyer de carta do GDE, cara, é muito legal porque é muito diferente, é complicado tentar explicar o sentimento, é parte da minha história. Era bonito, a gente achava que a gente não tinha nada, é foda quando você tem 20 e poucos anos, você acha que não tá realizando nada, e na verdade você tá, você tá fazendo muita coisa. Eu olho pra trás e falo, cara, que demais, um ótimo,maravilhoso começo.

(nomakeuptips) Mas então vocês já ouviram falar da TSF há muito tempo? Já tem uma longa história de banda,né.

Rodrigo: Eu não só trocava cartas com pessoas da cena hardcore que eram politicamente corretas, que eram vegetarianas como eu. Tinham caras que eram death metal, cara crust, anarcopunk e era uma troca de ideias e pontos de vista com muito respeito, porque ninguém podia brigar por carta porque brigar por carta não dá ibope, você não vai conseguir fazer uma crew, odiar outra banda trocando uma carta,entendeu?
Voltando ao Tijolo Seis Furos, eu devo ter recebido flyer da TSF, eu não chamava de “TSF”, chamava de “Tijolo Seis Furos” mesmo, deve ter sido alguém da GDE ou algum dos caras do metal de Santa Maria.

(nomakeuptips) Sobre o split com o Mukeka di Rato que saiu em vinil, vocês curtiram o resultado? Pretendem lançar mais material nesse formato?

Rodrigo: O resultado sim, eu não gosto das músicas, acho elas fraquíssimas. É mais uma forma de você ouvir música, sabe. Não só música compactada, é físico, um vinilzão que você vai passar uma agulha ali, não vai ser digital, é analógico. Não pode ser só o vinil, só o cd, só o mp3, tem que ser todos.
Sim, pretendemos, se possível toda a discografia em vinil.

(nomakeuptips) O próximo material da banda vai ser um EP?

Rodrigo: Vai sim. A gente espera que seja bom, porque a gente passou por uma fase muito difícil com a saída do baterista que era fundador, e eu acho que isso é uma boa virada de página.

(nomakeuptips) Vocês fazem bastante shows, mas vocês costumam assistir, ver outras bandas? Qual foi o último show que você foi?

Rodrigo: O último show que eu fui foi o Social Distortion, nesse aspecto é muito bom estar em São Paulo.

(nomakeuptips) Quais são os pensadores, filósofos, que te influenciaram a fazer as letras?

Rodrigo: Eu tive fases, se você pegar todos os cds vão ter fases. Tipo o Afasia, é completamente Nietzsche, na verdade “O Anticristo”, não Nietzsche, o livro “O Anticristo”.  “Assim falava Zaratustra” … depois eu fui aprendendo várias outras coisas, mas o Afasia é muito em cima disso e era uma fase que eu tinha acabado de me formar, queria terminar com a minha namorada de 6 anos, mais ou menos isso. Mas se você for ver eu passei de uma esquerda bem superficial quase comunista, de esquerda, pra uma coisa mais individual, eu posso ser autônomo, eu posso pensar e não preciso ter uma muleta literária. Eu to inserido num meio e desse meio eu sou influenciável e influencio e daí me tornar uma pessoa melhor pro meio e pra mim, entendeu. E eu acho que pra isso que servem os livros teóricos, não pra você ficar usando eles como uma muleta “ah porque a filosofia alemã… ah porque os filósofos franceses…” tem que ler, mas você é de Vitória, entendeu. Você pega o Guy Debord, por exemplo, de “A Sociedade do Espetáculo” e vai ler, foi escrito em 1969 naquela revolução que eles fizeram em Paris, só que você mora em 2000 na cidade de Vitória, nem a temperatura se parece muito, então você tem que assimilar aquilo para o teu meio, e eu acho que é mais ou menos isso. Eu gosto muito de filosofia alemã, não querendo que todos os garotos leiam porque às vezes é até chata e fria, às vezes é melhor você pegar umas coisas sul-americanas que é mais quente, mais sentimental, a filosofia alemã, pra mim é a melhor, são os caras que pegaram mais no fundo e por chegarem mais no fundo às vezes eles não são tão positivos e tão legais então pra mim eles são os melhores, Nietzsche, Kant, Schopenhauer, Max Stirner, Marx, esses caras.

(nomakeuptips) Fala alguma coisa aí, o espaço é teu para falar o que quiser.

Rodrigo: Cara, boa sorte, porque você estão entrando nessa e vocês sabem que estão indo na contramão, então cuidado, às vezes o ônibus vem de frente e nem sempre é bom bater de frente, às vezes é bom dar uma desviada e continuar seguindo.

E se um dia tivéssemos que resistir,
e se tudo que fizéssemos fosse em vão?
A vida mesmo assim teria uma razão.
Manter-se de pé e esperar.
E se não fossemos tão jovens ainda estaríamos aqui?
E se não pudéssemos mais cantar,
nem reclamar
nem protestar?
Fingiríamos esquecer nosso ideal
ou lutaríamos agora pra valer?
Os tombos da vida nos fazem crescer
e não devemos desistir…
Mas então vamos lá,
lutar por um ideal.
Se viver é resistir,
então será…
E ai poderemos sorrir como mulheres negras,
que apesar de todo sofrimento se negam a chorar.

Mulheres Negras – DEAD FISH

Sobre gabicg

zinester, journalist, researcher and music lover.
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