Fanzines pra toda a vida…

Colaboração: Gabriela Cleveston Gelain / Sirva-Se Cultura Alternativa em:  http://sirvase.net/blog/?p=4214
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Marcio Sno é um figura que assim como muitos do mundo underground, conheceu, se apaixonou e começou a produzir fanzines, tempos depois o cara passou a se relacionar de uma maneira diferenciada com essas publicações, deixando assim de ser apenas um produtor de para se tornar um pesquisador do assunto.

Em meio a todo esse envolvimento, Sno encontrou junto ao pessoal da Ugra Press, que fomenta esse tipo de publicação resistente até hoje, em meio a um mundo onde a web acabou por substituir nossos selos batizados, demo-tapes e cartas sociais – um meio de se relacionar ainda mais com esse material.

A Ugra, editora independente paulista, é a responsável pela publicação do Anuário de Zines, Fanzines e Publicações Alternativas, uma grande iniciativa que começou a aproximar fanzineiros de todo o país, e está em finalização de uma segunda edição.

Além disso, Marcio também é editor do documentário audiovisual intitulado “Fanzineiros do Século Passado”, um projeto totalmente sem fins lucrativos, que traz vários depoimentos de fanzineiros de todo o território nacional explicando o que é esse tal de fanzine.

Segundo Sno, a iniciativa de rodar o doc. surgiu quando ele começou a pesquisar mais profundamente sobre zines e percebeu que no Brasil não havia, até então, um registro audiovisual que falasse essencialmente sobre eles, existiam apenas alguns documentários que citavam essas publicações do faça-você-mesmo e só.

Fanzineiros no Século Passado” teve uma repercussão infinitivamente maior do que o editor imaginava: o primeiro capítulo teve mais de 3 mil visualizações no Vimeo, isso sem contar o número de cópias físicas que circularam e que foram multiplicadas Brasil afora.

Praticamente todos os eventos ligados a fanzines no país exibiram e ainda exibem o documentário, muita gente procurou Marcio para discutir sobre este trabalho, entre professores, alunos de comunicação, imprensa e público em geral (até em minha cidade, Santa Maria – RS, o amigo Daniel Villaverde, outra figura conhecida do zine nacional, palestrou e exibiu o vídeo, durante a Jornada Acadêmica Integrada da UFSM).

Depois do sucesso do primeiro capítulo, agora surge o capítulo dois com o tema “O fanzine a serviço do rock, os fanzineiros deste século e os estímulos para a produção impressa”, subtítulo escolhido durante a edição desta segunda parte.

Lançado recentemente durante o II Ugra Zine Fest (dia 10 de Março), a parte II do doc., está fresquinha, mas por enquanto ainda não está disponível na web. Vai sair em formato físico repleto de ilustrações e como bônus, terá o capítulo 1, o trailer e os erros de gravação. Leitores de zines e zineiros de carteirinha poderão adquirir o dvd a preço de custo dia 14 de Abril, junto com o II Anuário da Ugra Press.

Não pude estar presente na II Ugra Zine Fest devido à distância física, mas consegui entrevistar o Marcio sobre um pouco dos zines em sua vida e a segunda parte do documentário , tão esperado para todos que, igual a mim, tem os fanzines como uma paixão e um apreço àquele passado dos correios, dos flyer’s e das cartas…

De que maneira e quando os fanzines entraram na sua vida pela primeira vez?

Eu era leitor da ‘Rock Brigade’ e todos os meses ia direto pra a seção ‘Headbanger Voice’ para conferir as bandas que anunciavam suas demo-tapes. Nessa época, passei a buscar algo diferente, numa tentativa de sair da mesmice das rádios rock de São Paulo.

Perto da parte das bandas, tinha uma coluna para fanzines. Tá, mas o que eram os fanzines? Naquela época não tinha internet para você dar uma “googlada” e a resposta estaria ali na sua cara. No dicionário não tinha essa palavra e eu não tinha amigos que conheciam esse universo. O que eu fiz?

Mesmo sem saber do que se tratava, mandei cartas para uns três endereços perguntado: “quanto custa pra receber seu fanzine?”, recebi as respostas e mandei minha contribuição. Dias depois chegou em minhas mãos os zines.

Lembro-me que o primeiro foi o ‘Secret Face’. Percebi que eu poderia fazer algo parecido e não sosseguei enquanto não fiz o meu. Isso foi em 1993. E até hoje eles fazem parte de minha vida. Queira ou não queira.

O que fazem hoje os “fanzineiros do século passado”? Que perfil você diria que tem o fanzineiro deste século que o difere do fanzineiro do século passado?

A maioria dos fanzineiros do século passado estão distante das atividades de zines. As pessoas crescem, constituem famílias, criam responsabilidades profissionais, espirituais, acadêmicas e a produção fica esquecida. O pessoal da minha época tem hoje 35, 40, 50 anos e fica realmente difícil que continuem produzindo zines. Afinal, vivemos em um mundo capitalista e o tempo livre quase não existe.

Os fanzineiros desse século tem uma vantagem que os do passado não tiveram: o acesso aos bens tecnológicos e à internet, que agiliza muita coisa e deixa tudo mais fácil. Você hoje em dia consegue produzir um zine de 16 páginas em um único dia, sem encostar os dedos em tesoura, cola. Tudo é muito fácil. O editor atual está mais próximo das informações, afinal, já cresceu com um computador em casa. As possibilidades são infinitas.

Márcio Sno entre amig@s na Fanzinada – SP

Apesar dos “tempos das cartas” terem acabado, como você vê a resistência dos zines nos dias de hoje, como eles estão sendo divulgados e distribuídos?

A forma de distribuir continua praticamente a mesma: via carta, de mão em mão em shows, eventos, pra conhecidos e parentes. A divulgação é quase que 100% via internet, por intermédio de e-mails, blogues e redes sociais.

Muitas pessoas estão optando em passar suas publicações para o PDF, distribuir por e-mail ou mesmo alojando em algum site de compartilhamento de arquivos e divulgando o link para seus correspondentes virtuais

Vejo com muita alegria a resistência dos fanzineiros que insistem no impresso. Muitos deles estão investindo cada vez mais na qualidade e abrindo mão da quantidade, que talvez seja uma das formas de sobrevivência frente as tecnologias que inibem a produção impressa.

Dos fanzines que estão em circulação, gostaria de dar destaque sobre algum que ache muito interessante de alguma forma?

Prefiro não destacar fanzines e sim dois fanzineiros.

Um é o Flavio Grão, que lançou recentemente os zines ‘Manufatura’ e ‘Cortex’. Grão é artista plástico e suas histórias são muito profundas e não possuem textos: são apenas ilustrações ou colagens recheadas de conteúdo e mensagens. Utiliza diversos recursos gráficos e de papel para montar suas publicações. São publicações muito inteligentes.

Outro é Rodrigo Okuyama. Esse cara é um gênio. Utiliza diversos tipos de materiais, técnicas de pintura, colagem, costura, recortes, dobraduras, enfim, o cara usa de diversas estratégias para publicar seus zines. Suas publicações são verdadeiras obras de arte e vale muito a pena ter em mãos e apreciar. Os últimos publicados foram La Permura, a série Zine Zinho e a coletânea de estêncieis Extensas Estrias del Esten Siñor.

Ambos editores representam a cara dos fanzines pós-internet: com muita qualidade artística e gráfica, que motivam a aquisição do material impresso e mostram o amadurecimento dos fanzines produzidos no Brasil.

O documentário “Fanzineiros do Século Passado” parte I foi uma apanhado de entrevistas com várias pessoas representativas dentro do cenário underground. Como se deu a seleção de depoimentos para o capítulo dois, algumas destas pessoas se repetiram? O documentário terá um terceiro capítulo?

Na verdade não houve seleção para os personagens. Fui chamando quem estava por perto e quem tinha uma representatividade bacana no meio independente. As pessoas de outras cidades e estados fui gravando conforme elas vinham para São Paulo e aproveitei para registrar os depoimentos. Foi assim com Daniel Villaverde, Fellipe CDC, Leonardo Panço, Fernanda Meireles etc.

Sim, algumas pessoas se repetiram no segundo capítulo, por falarem sobre temas abordados nessa parte. Mas foram poucas pessoas que se repetiram, pois a ideia é ter mais pessoas a cada capítulo. Sei que jamais conseguirei reunir todos os fanzineiros do Brasil, mas quanto mais, melhor!

Sim, tenho outros assuntos ainda para abordar em um terceiro capítulo e chega. Será uma trilogia de fato. Me recuso em fazer capítulo 4 ou algo do tipo. Fica para outras pessoas também produzirem seus docs. sobre fanzines.

O que te levou a fazer o capítulo dois e quanto tempo você demorou para concluí-lo?

Na verdade, nem era para ser dividido em capítulos. A ideia inicial era fazer um documentário único sem divisão de partes. Porém, em dezembro de 2010, o Douglas Utescher da ‘Ugra Press’ estava organizando o ‘1º Ugra Zine Fest’ e perguntou se eu queria exibir uma prévia do doc. e eu prontamente aceitei.

Então, como se tratava de um evento para zineiros, me limitei em relembrar as histórias da época do recorta e cola e da rede social analógica, ou seja, os contatos via carta. Como gostei muito do resultado, me recusei e chamá-lo de prévia e batizei como Capítulo 1 e estipulei temas para os próximos dois capítulos.

Esse segundo, eu já captei imagens desde a época em que estava registrando para o primeiro. Entre decupagem e edição final, devo ter gastado algo mais de um mês, sempre mexendo nos meus momentos de folga do serviço e das obrigações domésticas.

Como se deu o processo de escolha do tema, edição e coleta dos depoimentos para a segunda parte do documentário Fanzineiros no Século Passado? Contei trinta pessoas no trailer do capítulo 2, mas 49 pessoas foram entrevistadas.

A princípio foi complicado, pois como não tinha um roteiro certo, geralmente fazia as mesmas perguntas e algumas diferenciadas conforme o personagem e o direcionamento que a conversa dava durante as gravações. Quando parei pra pensar nos temas de cada capítulo, passei a fazer perguntas específicas para os personagens seguintes.

A coleta foi a mesma: gravava na casa dos personagens, em eventos, shows, quase sempre acompanhado de meu filho Calvin que ajudava na gravação e aproveitava para conhecer as pessoas e suas respectivas histórias.

Gravei no total 54 depoimentos, destes, 49 entraram no segundo capítulo. Pense na dificuldade para editar tudo isso… Cheguei a fazer um curso de edição para ajudar na produção desse capítulo.

Tive alguns amigos que gravaram em outros estados e me mandaram. Xan Braz gravou em Volta Redonda e Barra Mansa (RJ), Law Tissot, gravou seu próprio depoimento em Rio Grande (RS), Alex de Souza gravou o depoimento de Henrique Magalhães em João Pessoa (PB), Danúbio Aguiar gravou no Canadá e Marlos Alves em Londres. Todos esses contatos são pessoas com quem convivi desde a década de 1990, seja por carta ou pessoalmente, com as quais criei um vínculo de amizade que caminha por décadas.

Houve alguma diferença no modo que vocês fizeram o lançamento do documentário parte 1 para a 2, já que houve uma grande expectativa do público que acompanhou o primeiro capítulo?

O lançamento foi da mesma forma que o primeiro, mesmo porque foram lançados em eventos da Ugra. Encaixamos na programação do ‘Ugra Zine Fest’ e assim aconteceu.

Sim, a expectativa do público foi imensa, principalmente pela grande repercussão que o primeiro capítulo teve. E isso aumentou a minha responsabilidade em manter a qualidade e honestidade da série.

Houve muita cobrança de todos os lados. Pessoas cobrando o lançamento, falando que faltou falar sobre determinado assunto, faltou entrevistar tal pessoa e até casos de pessoas se oferecendo para ser entrevistadas. Não é fácil. Essa cobrança toda às vezes desestimula demais, afinal, faço o documentário com prazer e quando as cobranças aparecem, o tesão vai se perdendo.

Aprendi a lidar com isso, ignorando alguns comentários e até mesmo sugerindo que as pessoas produzissem seus próprios documentários, afinal, não quero monopolizar nada, quanto mais materiais sobre o assunto, melhor!

As seis bandas clássicas dos anos 90 que estão no documentário, você as selecionou? Por quê?

Enquanto eu editava, evitei ouvir músicas, pois nesse período costumo usar fones de ouvidos por conta da precisão dos cortes. Para poupar meus ouvidos, prefiro não forçá-los.

A primeira banda que me veio à cabeça foi a Execradores. A “Incentivo aos operários” foi uma canção que marcou muito a época na qual íamos a shows punk organizados pelo Coletivo Altruísta e antes mesmo de começar a editar queria que ela abrisse o doc.
Depois fui lembrando de introduções de outras canções para abrir os blocos. Aí vieram ‘The Power of the Bira’, ‘Snooze’, ‘Mukeka di Rato’, ‘Boi Mamão’ e nos créditos ainda usei ‘Gangrena Gasosa’ e ‘Os Cabeloduro’. Escolhi essas bandas pelo fato de serem as que eu mais gostava na época e pelo fato de ter contato direto com os músicos, o que facilitou a autorização para incluir as canções. Ah, no teaser, usei uma música do ‘Dead Fish’.
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Fanzineiros do Século Passado – Capítulo 1 from Márcio Sno on Vimeo.

A pergunta que não quer calar, para Márcio Sno: a produção impressa vai diminuir drasticamente por causa da “revolução digital” ou os fanzineiros pelo impresso irão resistir?

Na verdade o grande abalo já aconteceu, que começou na segunda metade dos anos 90 e perdurou por muito tempo. Porém, a realidade começa a mudar. Aos poucos nós, brasileiros, estamos aprendendo a ter uma relação harmoniosa entre impresso e virtual. E, acompanhando o andamento de países do hemisfério norte, em relação dos quais estamos um tanto atrasados, os fanzines estão retomando com uma proposta que prima mais pela qualidade que pela quantidade. Vejo que bons ares pairam sobre o fanzinato nacional, principalmente de dois anos pra cá.

II Anuário Fanzines Impressos

Aproveitando a oportunidade, gostaria de perguntar: a idéia é fazer um terceiro Anuário de zines, fanzines e publicações alternativas da Ugra Press? Estou querendo enviar o meu zine e não consegui enviar até a data do segundo Anuário. Sei que a segunda edição está saindo fresquinha, por agora.

Então, o segundo Anuário será lançado em 14 de abril, aqui em São Paulo. Era para ser lançado no dia do II Ugra Zine Fest, porém, devido a enorme demanda que tínhamos em relação do evento, achamos melhor adiar o lançamento para garantir um material de qualidade o que é peculiar ao nosso editor Douglas Utescher. A ideia é que o Anuário continue a ter mais edições. Se tivermos forças é que a cada ano tenhamos um novo para lançar. Pode mandar sua publicação que, se mandar a ficha preenchida, sairá com certeza na próxima edição!

O espaço é teu para falar o que quiser, fale!

Jamais pensei que os fanzines me acompanhariam por tanto tempo na minha vida. Pensei que no comecinho dos anos 00 eu iria desencanar disso tudo e viver só de passado. Mas, a partir de 2005, em uma oficina que dei no SESC Barra Mansa, eles voltaram pra mim numa intensidade absurda e hoje me vejo totalmente relacionado a eles.

Deixei de ser um produtor de zines para me tornar pesquisador, é o que me considero hoje. E pretendo manter esse “título” por algum tempo ainda, mesmo porque tem ainda o terceiro capítulo, o livro que quero publicar e um mestrado que possa vir a ocorrer.

Pra coisa piorar (no bom sentido), estou envolvido com a Ugra, que é uma fomentadora desse tipo de publicação, temos várias ideias, projetos etc e tal, que se forem realizados, a nossa convivência com o zines será mesmo “até que a morte nos separe”…

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Resistência ou Nada

Resistência ou Nada

Colaboração: Gabriela Cleveston Gelain
Fotos: Arquivo pessoal

Colaboração para a Sirva-se Cultura Alternativa em 05/06/2012: http://sirvase.net/blog/?p=4911

Quem está envolvido na cena independente, sabe que as coisas não surgem simplesmente do nada. É preciso colocar a cara a tapa. É preciso construir. Tem que haver coragem e também estar preparado para receber reclamações de pessoas que na maioria das vezes só sabem… Criticar.

O Guilherme C. G. é deste tipo de pessoal, que além de ter tocado em diversas bandas, organiza eventos como a [A]Mostra dos Independentes de Porto Alegre e edita fanzines como o recém lançado Outono ou Nada, que conta com 40 páginas de entrevistas, matérias, skate, colunas e muitas resenhas.

Durante a tour “Vida Simples Sem Deus” das bandas Cidade Cemitério e Sistema de Mentiras, em abril, aqui no Rio Grande do Sul, aproveitei uma tarde na casa da Júlia (que hospedou parte das bandas) para conversar com Guilherme sobre o fanzine novo dele, o Outono ou Nada.

Abaixo segue a entrevista que fiz com ele sobre os zines e outras coisas que ele fez e vem fazendo.

Antes de falar nos zines, conte um pouco sobre as bandas que tu já participou.

Vixe… Passei por algumas bandas nestes últimos anos. Algumas até tiveram um certo destaque no meio underground, mas a maioria foi e continua sendo desconhecida.

Minha primeira banda foi a Kustódia, em 1998. A banda já existia desde 1997 e me chamaram um ano depois. No começo os caras tocavam covers de bandas punk e metal, daí quando entrei começamos a fazer músicas próprias. Inicialmente os sons eram numa linha punk, depois aceleramos para hardcore e quando a banda acabou, em 2001, tocávamos crust beirando o grindcore.

Neste meio tempo surgiu a Instantâneo Momento de Loucura (2000-2003), depois a Cü Sujo voltou (2002-2011) e os caras me chamaram para cantar, coloquei um projeto chamado Melhoramentos em prática (2003-2005), toquei na The Trial (2003-2006), alguns meses na 3 Real (2004), teve a Loorex (2004-2009) também, montei a Change Your Life (2009-2010 – 2011) e por último estava na Out of Reason (2010-2011), banda muito foda dos anos 90 que voltou a ativa e os caras me intimaram para tocar com eles, como era fã da banda, não pensei duas vezes. Isso tudo sem contar uma série de bandas e projetos que não passaram de alguns ensaios e as vezes que quebrei galho tocando em shows.

Por uma séria de motivos eu desanimei desse negócio de ter bandas e tocar aqui em Porto Alegre, então no ano passado eu larguei tudo de mão, mas continuo colando em shows e ajudando sempre que posso.

Lembra quando foi o teu primeiro contato com fanzine? Quando começou a editar os teus próprios fanzines?

Bah… Sinceramente eu não me lembro. No colégio eu ajudava no jornalzinho do Grêmio Estudantil, aquilo era quase um fanzine, tinha até parte de bandas do colégio e tudo mais.  AH! Um dos primeiros que parou na minha mão foi o HC Scene #3, a partir dele fiz muitos contatos, conheci bandas e pessoas.

Durante um bom tempo contribui nas publicações de amigos fazendo quadrinhos ou escrevendo textos, mas me considero um zineiro novo. Comecei a editar meus próprios fanzines só em 2009 com o Seja Você Mesmo, depois veio o Conversas Paralelas e agora o Outono ou Nada.

Quando surgiu a ideia de fazer o Outono ou Nada? Há muito tempo tu não publicava outro fanzine?

Tenho feito fanzines desde 2009 sem parar. Fiz primeiro o Seja Você Mesmo, daí eu cansei dele, estava sem tempo e tal, comecei então a fazer o Conversas Paralelas que é um fanzine pessoal, com recortes, textos, música, fotos, várias coisas e que eu ainda sigo editando. No final do ano passado eu tive a ideia de voltar com o Seja Você Mesmo, com a proposta dele e não propriamente com o fanzine. Inicialmente eu até ia chamar o Outono ou Nada de Seja Você Mesmo, mas cheguei a conclusão de que não seria exatamente a mesma coisa.

O Seja Você Mesmo era uma espécie de “plágio” da revista Veja, mas voltado para o underground. Tinha entrevistas em páginas amarelas e a diagramação toda semelhante a da revista… Saíram três edições.

Então pensei: “Não, vou fazer outro fanzine, também com resenhas, entrevistas, releases, bandas novas, mas vou colocar outro nome”. Eu fiquei me enrolando e o nome Outono ou Nada “surgiu” na semana em que fui fazer as primeiras cópias do fanzine, em março deste ano.

De onde veio essa ideia de inserir o skate como tema do teu fanzine novo, o Outono ou Nada?

Cara, foi meio sem querer, a ideia era fazer um fanzine para agregar várias coisas e o skate tava junto, é algo “secundário” no fanzine, mais pela estética, talvez, não foi algo proposital, tipo, “vou fazer um zine voltado para o skate”. Gosto de pegar o carrinho, subir em cima e dar umas embaladas, é algo com a qual de certa forma me identifico.

Tu tens noção da tiragem que tu teve deste fanzine em relação aos outros?

É uma coisa que eu não consigo controlar, pois sempre faço aos poucos as cópias dos fanzines que edito. Faz umas duas ou três semanas que saiu o Outono ou Nada e eu fiz a primeira tiragem de 30 cópias, depois fiz mais 50 e há pouco tempo mais 100… Assim vou indo… Como este ficou um fanzine muito grosso, eu tenho que vender ele, diferente dos outros zines que eu fiz e que eu dava para a galera. O Outono ou Nada tem 40 páginas, ou seja, eu tenho um gasto muito grande com ele, eu não posso investir todo o meu salário em fanzines (risos), infelizmente eu tenho que vender ele e, conforme eu vou vendendo, vou fazendo mais cópias.

Quando saí a próxima edição?

Sem previsão! Minha ideia era fazer só essa primeira, pelo compromisso que eu já tinha assumido com as bandas, estava bem desmotivado, mas agora com o fanzine em mãos e distribuindo para o pessoal, tive um retorno muito positivo, inclusive um pessoal já querendo patrocinar outra edição. Então já estou começando a pensar em dar continuidade a este projeto, mas ainda sem data de lançamento. Enquanto não vem o próximo número, vou seguir distribuindo o primeiro… é capaz de saírem 300 ou mais cópias no total.

Eu queria saber como foi feita a seção de colunas no início ali do zine, como tu fez? Tu sugere o tema?

A verdade é que as pessoas não sabem que são colunistas do fanzine.

É sério?(risos)

Sério! (risos) Assim, são quatro colunistas: um é o Dieguis, peguei um texto dele que estava no encarte de um disco do Jersey Killer que acho que não vai sair, então traduzi, já que estava em espanhol, e publiquei sem avisar ele. Sei que não vai se importar, inclusive ficará superfeliz; o Jeison faz o fanzine Café Sem Açúcar e foi do nada “Estou fazendo um zine e vai ter colunas, foi a última parte do fanzine que criei e falta isso para fechar”, então ele me enviou um texto que tinha sobrando; o Sano estava conversando comigo sobre a volta dele para Lajeado e me escreveu aquilo que foi publicado na coluna. Rolou tipo “Posso usar esta parte em uma coluna do fanzine? Gostei muito, posso usar?” e ele aceitou; o Alan é o quarto colunista desta edição, achei um texto dele na internet, traduzi e coloquei no fanzine.

Ou seja, não foi nada pensado, não sugeri uma temática, peguei materiais que apareciam na minha frente. O fanzine estava quase pronto, se eu fosse pedir para as pessoas escreverem algo demoraria ainda mais. Talvez para o próximo número eu pense em um tema específico.

E o contato com o Carlos Dias (Polara, Againe), que fez a arte da capa do Outono ou Nada, como aconteceu?

Já falava com o Carlinhos pela internet há um tempo e nos conhecemos pessoalmente em 2004, logo que me mudei para Porto Alegre. Sempre admirei o trabalho dele, os desenhos e as bandas. Então vira e mexe nos trombamos pelo mundão.

Uma loja de discos aqui de Porto Alegre, a já extinta Fuzz Discos, fez uma troca de desenhos dele. Ele fez vários desenhos, colou nas paredes da loja e tu ia lá, fazia um desenho ou deixava um fanzine e trocava por uma arte dele. Eu peguei os dois que estão no fanzine. A minha ideia inicial era colocar só o desenho que está dentro do fanzine. Comentei com ele sobre a ideia e ele curtiu, total apoio. Depois tive um insight de também colocar um release dele com uma foto e talz. O outro desenho que peguei na troca também era legal – e qual não é, né?, aproveitei e usei ele na capa, para relacionar com parte do conteúdo do fanzine. Poderia ter sido a foto de alguma das bandas entrevistadas, mas curti mais a ideia do desenho.

O release tu retirou de onde?

Retirei do site dele que, por incrível que pareça, saiu do ar na semana que o fanzine foi lançado. Talvez agora a única fonte do release do Carlinhos seja o Outono ou Nada! (risos)

Tu tem recebido muitos zines este ano? Antigamente, como tu fazia para ter acesso aos fanzines?

Já faz mais de 10 anos que recebo fanzines e este ano não está sendo diferente, muita gente fazendo e distribuindo.

A maioria eu recebia em casa sem pedir. O pessoal me mandava por carta ou então eu ia em um show, tinha ali fanzine, eu pegava, tinha pessoal distribuindo e essas coisas. Pelo que lembro foram poucas as vezes que tive a pro atividade de escrever para alguém pedindo, simplesmente eles iam chegando na minha mão e eu fui colecionando!

Agora com o Outono ou Nada em mãos acaba rolando aquele esquema de troca. Eu mando o meu fanzine, tu me manda o teu e assim vai. Isso já acontecia com o Conversas Paralelas, o Seja Você Mesmo também foi assim e com o Outono ou Nada está começando também. Quando o pessoal me escreve pedindo para adquiri o zine sempre dou a opção da troca, se não é R$2 em mãos ou R$5 com a postagem.

E tu tem recebido bastante pedido com pouco tempo da publicação do Outono ou Nada?

Sim! Estes dias até uma professora me mandou um e-mail, me emocionei pra caramba. Ela ficou sabendo não sei como que tinha saído o Outono ou Nada, disse que é professora e trabalha com fanzines em sala de aula. Neste caso não tive nem cara de pau de cobrar, me senti muito honrado em poder contribuir de alguma forma com o trabalho dela. Mandei também o Conversas Paralelas junto!

As pessoas têm um pouco de receio às vezes, de pedir zines, não sei o porquê. Sabe que tem saído na mídia até matéria sobre fanzines… Vi uma na globo.com estes dias…

Percebo que aqui em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul como um todo está surgindo uma nova geração de fanzineiros, inclusive eu me incluo nela. Temos o fanzine que tu faz com a Japa, um pessoal como o Jeison, o Marquinhos e a Giselle que estão tirando os textos das gavetas e colocando no papel, o Marcel defendendo a causa palestina e até o Insekto voltou a fanzinar! Acho que o pessoal está cansando um pouco dessa história de viver apenas uma realidade virtual e resolveu voltar para o papel.

Mesmo nos shows, eu ando vendo as banquinhas recheadas!

Isso é outra coisa que parece estar voltando por aqui. Quando eu comecei a fazer fanzines, em 2009, não se via mais eles nas banquinhas que montavam em shows, ao menos por aqui. Eu ia e largava na mão das pessoas, se não ninguém pegava. Era algo que estava morto. Agora está voltando a ter.

Talvez porque algumas bandas de outros estados estejam vindo tocar aqui no Rio Grande do Sul.. um intercâmbio de contatos.

Também. Uma coisa leva a outra. Tem um pessoal novo fazendo fanzines e é óbvio que tu não vai deixar o teu material engavetado, tu vai querer divulgar ele, e qual o melhor lugar isso? Show. É assim com os discos também.

Realmente agora vemos mais fanzines circulando por aqui. Qual foi o critério que tu adotou para escolha dos que foram resenhados no Outono ou Nada?

Para o Outono ou Nada eu resenhei os mais recentes que eu tinha naquele momento, deixei muito material de fora. Infelizmente tive que estabelecer esse critério, eu não tinha como falar sobre todo material que acumulei nestes três anos de intervalo entre o Seja Você Mesmo e o Outono ou Nada. Caso contrário seria praticamente um Anuário! (risos)

Falando em Anuário, temos o da Ugra Press. Tu contribuiu de alguma forma com essa publicação? Mandou material para eles?

O Douglas da Ugra Press me escreveu pedindo se haviam alguns eventos aqui no Rio Grande do Sul sobre fanzines. A [A]mostra dos Independentes não é um evento exclusivo de fanzines, mas mandei e ele ficou de publicar neste segundo anuário que está para sair.

O Seja Você Mesmo e o Conversas Paralelas já marcam presença no Anuário da Ugra Press, mas ainda não mandei o Outono ou Nada para eles. Espero reunir vários fanzines e mando tudo junto num único pacote para eles.

Como surgiu a ideia da [A]Mostra dos Independentes?

Eu percebia que os shows independentes aqui de Porto Alegre se resumiam em um encontro de pessoas com certas afinidades para curtir um som e nada mais. Sei lá, acho que os shows não precisam ser apenas isso, é legal contar também com um espaço para discussão e exposições de outras formas de arte. Foi nessa pilha que surgiu a [A]Mostra dos Independentes de Porto Alegre.

Era um desejo que eu tinha há um bom tempo, mas consegui colocar em prática só em 2010. Nesta época a cidade estava com poucos espaços para shows e a solução foi começar a usar o estúdio de um amigo para isso. Realizávamos tipo, um show por mês, nessa média, então lancei a ideia de fazer um evento de três dias com diversas atrações e ele abraçou a causa junto comigo. Infelizmente alguns meses depois ele teve que fechar o estúdio, mas mesmo assim segui com a ideia da [A]Mostra dos Independentes.

Conta com mais alguém na organização da [A]Mostra dos Independentes?

Conto sempre com o apoio de um ou mais amigos e também das atrações do evento, que acabam curtindo a ideia e ajudam como podem.

Tem alguma previsão para a próxima [A]mostra dos Independentes de Porto Alegre?

A ideia do evento é ser anual. As duas primeiras edições foram em maio de 2010 e 2011. A primeira foram três dias no Studio Aliens. Ano passado, com o fechamento deste lugar eu fiz só um dia no Entre Bar, mas foi cheio de bandas e com muitas outras atrações. Para este ano ainda estou decidindo o formato, o prazo está curto e eu tenho que correr atrás disso. A ideia é fazer em junho.

Fala o que quiser aí, o espaço é teu (: !

Queria agradecer o interesse e a oportunidade de falar um pouco sobre o Outono ou Nada. Quem tiver interesse em conhecer a publicação é só mandar um e-mail para outonoounada@gmail.com. Valeu!

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Câmera Lenta e uma conversa rápida (com Cristiano Onofre)

Colaboração para a Sirva-se Cultura Alternativa 27/07/12 em: http://sirvase.net/blog/?p=5343

“Três contos, situações horríveis e personagens reais até demais” é a frase de contracapa do livro intitulado “Câmera Lenta” de Cristiano Onofre. Lançado e distribuído de maneira totalmente independente, a publicação é uma coletânea em formato de bolso, que conta com três contos escritos entre 2008 e 2010, o título grande negritado na capa sem ilustração, cor de papel reciclado, 135 páginas e uma linguagem em grande parte coloquial. Dedicado à anarquia, o livro reflete um pouco o dia-a-dia bastante violento e doentio de personagens da nossa sociedade “civilizada”.

Sempre participando da cena punk no Rio de Janeiro, o autor carioca de 21 anos é formado em Letras, pós-graduando em Estudos Literários, professor, desenhista, fanzineiro e músico (banda Desistä).

Cristiano costuma deixar bem claro que o estudo e o trabalho são bem secundários em sua vida e apesar de gostar da profissão como professor, a lição que busca passar nos bate-papos realizados durante o lançamento de “Câmera Lenta” é outra: ressaltar a importância da cultura marginal e a constante luta pela liberdade de expressão. Também acredita que muitos jovens têm receio de colocar a cara a tapa e publicar o que escrevem, seja em formato de zine ou livro, embora gostem de suas produções. E é isso que ele diz estar fazendo: colocando a cara a tapa num rolê que passou por algumas cidades Brasil afora e esteve recentemente no Rio Grande do Sul junto com uma mini-tour de inverno da banda punk Deaf Kids, passando por algumas cidades do estado, Cristiano acompanha o rolê lançando seu livro e realizando um bate-papo entre os shows sobre arte marginal.

A literatura marginal não foi feita para agradar, ela é desenvolvida justamente com o objetivo de chocar o leitor e assim criar uma reflexão e formar um pensamento crítico. O zine “A arte de comprar-te”, por exemplo, tem como tema a mercantilização da arte em um momento onde as bandas punks do Rio de Janeiro muitas vezes precisavam vender ingressos para poder tocar. Não concordando com a situação, ele resolveu escrever e fez seu público leitor refletir sobre o momento na cena.

Cristiano acompanhou esse role lançando “Câmera Lenta”, além de realizar um bate-papo entre os shows sobre arte marginal. Estive em Santa Cruz no primeiro dia da turnê e tive uma conversa “rápida” com o cara, e aqui você conhece um pouco mais da obra e do autor.

Tu já tinha há um bom tempo, contato com a cultura independente, os fanzines… De onde despertou a ideia de fazer o ‘Câmera Lenta’?

Eu sempre fiz muito fanzine. Desde muito molecão, eu fazia zine, desde o meu primeiro contato com hardcore/punk eu já tive também contato com eles, quando eu ia para casa lendo algum fanzine que alguma galera fazia, que eu comprava, eles entregavam, encarte de banda…então, assim eu comecei a ter contato com essa cultura e me interessar ainda mais, por ser uma cultura marginal, uma cultura punk. Sempre lancei muito fanzine porque sempre gostei muito de escrever.

Tu começou isso com que idade?

Eu devia ter uns treze anos, sei lá. Molecasso.

Como surgiu essa ideia de acompanhar a tour da Deaf Kids para lançar o teu livro?

É um modelo que eu tô percebendo que é bem novo e como eu sempre tive metido nesse lance de punk rock, não tinha porque eu fazer em outro circuito,sabe? O que eu aprendi fazendo tour com banda, o que eu aprendi organizando show na minha cidade, eu podia usar o modelo em que eu já estava inserido, para lançar o meu livro.

E como no passado, através de banda punk e de tudo isso, eu já tinha fechado um círculo de amizades e contatos no Brasil inteiro, agora eu uso estes contatos para marcar o lançamento do livro. No nordeste, quando eu fui para lá lançar o Câmera Lenta, foi com a galera do movimento punk que eu conhecia, do underground, do rolê. Lancei em show, em ocupação. E isso é legal porque vai criando um interesse em outras pessoas que não são do meio. Às vezes pinta algum jornal, casa de cultura.

Acaba divulgando as bandas ao mesmo tempo.

Aproveita a oportunidade e anda junto, não tem porque não andar. A turnê toda acaba em lançar o livro em locais do tipo ocupação até lançar o livro num auditório de uma casa de cultura, mostras de arte, programas de televisão, em eventos de zine. Acaba transitando bastante entre os dois polos.

Quais eram os teus fanzines?

Eu me lembro de um que talvez ainda esteja em circulação, é o “Arte de Comprar-Te”, que tem para download. Tem um que é chamado “Algum Dia na Cidade Esquecida” e uns outros que eram esporádicos, escrevia, mas tinha pouca tiragem. Eram zines mais políticos, mas estes são mais pessoais. “O Arte de Comprar-Te” fala um pouco sobre a transformação da arte em consumo, em mercado. Eu escrevia em uma época no Rio de Janeiro em que rolava muito show com bandas do rolê punk , mas a banda tinha que vender ingresso para poder tocar, ou seja, era uma mercantilização da arte que eu achava errado, naquela época e eu achei que seria interessante fazer um zine para falar sobre isso, saca?

Como foi a repercussão do pessoal que leu teu zine questionando a própria cena local?

Acredito que teve uma repercussão sim, porque ele circulou bastante, chegou até a ir para Portugal, uns lances assim. Mandei bastante para Maceió também, inclusive, que eu lembro, na época. Teve uma circulação legal, um retorno bacana, as pessoas curtiram. Muitas se identificavam com aquela ideia, outras passaram a pensar daquela forma depois de ler. É legal que esse retorno vai te dando interesse para continuar fazendo, né? O retorno que se tem.

Daí, chegou um momento em que tu pensou em lançar um livro e separou estes contos de 2008 a 2010.

Como eu sempre gostei muito de escrever, o cara que gosta de escrever… por mais legal que seja lançar um zine, eu gosto e lanço até hoje, mas para quem curte escrever, ter um livro não sei se é realizar um sonho, mas o livro… tem um charme e tudo mais. E acaba criando uma vontade bem grande de ter um livro publicado. Por mais que tu tenha um fanzine para download também na internet, ter um livro publicado é uma outra situação, você cria. Eu lancei agora em março, estou lançando ele em vários lugares, nordeste, sudeste, vou voltar para Curitiba lançar lá também no final desta tour.

Como está sendo a repercussão do livro nestes lançamentos?

Tem uma galera que já leu. Como ele é um livro pequeno, as pessoas leem rápido. A Tina foi ela que organizou o lançamento do “Câmera Lenta” no Fanzinada em São Paulo, além do lançamento do documentário do Marcio Sno. E foi foda. Mas por enquanto eu tô fazendo o lançamento sozinho, eu levo uma sacola com os livros. E nessa tour do sul eu consegui vender o centésimo livro, para mim já é um sucesso , sabe? De mão em mão consegui vender o livro número 100.

E sobre a ficção dos contos, porque a galera compara ele ao ‘Misto Quente’do Bukowski?

É, não é baseado neste livro mas acaba que a galera começa a comparar, sempre rola um tipo de comparação. Eu acho que as pessoas sempre querem ter um grau de comparação com alguma coisa né? Eu não considero como inspiração para o livro, assim. Até porque não me importo, não ligo muito para isso. Na real é até uma honra, ser comparado com tais autores. Já me disseram também que copiei dos caras. Aí eu respondo: “Copiei mesmo, foda-se, se é isso então que tu acha.” Na real é porque acho que o estilo é muito parecido, até porque fala de coisas semelhantes. São pessoas sofrendo influência da sociedade e se revoltando, ficando malucas com algumas coisas que acontecem na vida e também por ser uma literatura violenta. Literatura marginal é chocante. Não tá ali para agradar, tá ali para chocar e através disso criar uma reflexão.

E como tu acabou selecionando estes contos, tem um porquê específico?

Não, dos contos que estão no livro, só um já tinha sido publicado anteriormente. Os outros dois são inéditos. Os outros eu escrevi para lançar de alguma forma, não sabendo ainda se seria em formato de zine ou de livro. Não na internet, queria uma publicação mais exclusiva.

Tu não inseriu ilustrações no ‘Câmera Lenta’ embora faça quadrinhos. Não pensa em publicar algo para uma próxima edição?

Não, este não tem ilustrações. Então, me fizeram esta pergunta ontem, eu tô falando isso agora, não tinha falado para ninguém. Estou pensando para o próximo talvez lançar uns quadrinhos. Não sei ainda.

Neste tour estou expondo os desenhos, eu não crio muito vínculo com as coisas, às vezes até dou os desenhos se as pessoas gostam muito.

Este bate-papo que tu está fazendo durante os shows da tour da Deaf Kids, como funciona?

O bate-papo em si não é para falar do lançamento do livro e sim da maneira como ele é publicado. Como eu falei, é um livro independente. A minha preocupação maior é fazer com que as pessoas tenham vontade de lançarem também trabalhos independentes. A minha intenção nem é vender livro. Às vezes as pessoas veem que o cara é escritor e eu sou só o leitor, cria uma hierarquização da coisa.  E às vezes o cara acha que não pode fazer aquilo. Eu fiz um lançamento em uma cidade e vieram dois meninos, um disse que adorava escrever mas não tinha coragem de lançar um livro,não tinha material suficiente e o amigo dele disse que adorava escrever poesia. Aí eu falei para eles: “Por que vocês não se juntam e fazem um zine?”. Eles falaram “Ah, pode crer”. Ou seja, você está mostrando para as pessoas que elas também são capazes de fazerem. E eu acho que tem que colocar a cara a tapa, essa tour sou eu totalmente colocando a cara a tapa.

Quantos livros você trouxe para a tour aqui do sul?

Trouxe 45 livros, porque a gráfica é a Deriva de Porto Alegre, uma editora anarquista. Aproveitei, aí segunda-feira vou conhecer a gráfica (a entrevista foi realizada na sexta-feira, o primeiro show no Rio Grande do Sul). E o motivo de se fazer poucas tiragens para cada viagem que eu faço, é para não ficar acumulando tanto livro. Por exemplo, se eu faço uma viagem com três lançamentos, eu levo em média uns 20 livros para cada cidade, às vezes sai, às vezes não, troco por cd de banda, eu faço assim. Não rola uma preocupação muito financeira com a coisa. É mais para divulgar mesmo.

Quais são Teus autores preferidos que te inspiraram de fato?

Tem o Paulo Lemiski, de Curitiba. Bukowski me inspira… tudo que a gente faz é fruto do que a gente já leu. Acho que a minha maior inspiração mesmo é filme.

Vi que tu pira no Gus Van Sant.  Tu trás alguma inspiração do cinema para o livro?

Aquele zine Um dia na cidade esquecida eu fiz praticamente depois de ver o filme ‘Gummo’, do Harmony Korine! Acho que a inspiração vem de música que tu ouve também.

Que sons tu ouvia na época em que tu escrevia os contos dos livros, tem um setlist inspirador?

Faz tanto tempo que escrevi que não lembro o que ouvia na época. Punk,né? (risos). O que eu ouço sempre. De 2008 até 2010 era muito Fugazi, At The Drive-In, Mars Volta… eu tava nessa pira, nesta época.

Acho que o Fugazi é inspiração para qualquer pessoa que curta o independente de maneira sincera.

Certo, Fugazi é vida! É uma grande influência. Sabe… teve um lançamento que veio uma menina dizendo que queria muito o meu trampo e tava sem grana pra voltar para casa, perguntou se tinha como me dar o livro, se podia depositar depois, mandar pelo correio. Eu perguntei se ela queria realmente o livro e disse que podia ficar, sem problemas.

Como professor, tu tenta inserir a arte marginal dentro da sala de aula?

Sim, claro, tanto é que alguns alunos meus já leram o livro, alguns ficaram meio chocados, outros não. É legal que quando eu vejo alguma faísca em algum aluno que pira em fazer algo no independente, de publicar algo, eu dou uma força. Já fiz trampo de ensinar aluno a fazer zine, sempre que dá eu tento encaixar o que vivo fora da escola para dentro dela. Acho muito importante, saca? Na real a verdadeira escola é a vida.

Queria que tu deixasse algum recado para futuros leitores do ‘Câmera Lenta!’

Quem for ler, caso se interesse de ler é uma publicação independente. Espero que a pessoa enxergue muito mais além da ficção que está ali, da maneira como o negócio é feito, como tudo isso está acontecendo, não achar que é só mais um livro… porque não é só mais um livro. É um livro que foi concebido de uma forma independente e existe uma militância por trás disso.

Para adquirir o Câmera Lenta, entre em contato: cristiano_onofre@hotmail.com

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ZINES, VÍDEO, MÚSICA, ARTE, SKATE: SESPER

Segue a entrevista aí no blog.
Foto: Adalberto Rossete

O santista Alexandre Cruz “Sesper” passou boa parte da adolescência vendo programas de rock  e fazendo zines com  papel e caneta bic. Ouvia demo-tapes, andava de skate, escrevia cartas, trocava lps e fitinhas, também teve algumas bandas independentes. Ele fez parte de um tempo em que os flyers de shows eram feitos com tesoura e cola. Hoje utiliza as revistas, as cartas, os selos, os discos, os envelopes  e papeis dos anos 80 e 90 como matéria-prima em suas artes. Como o contato com as subculturas, o rock e o skate em Santos vieram desde muito cedo, acabou se formando na academia do Do It Yourself. Diplomado no faça-você-mesmo. “Acredito nesta de fazer porque você está gostando da coisa, indiferente de alguém dizer que está bonito ou feio, sabe?”. Também conhecido como “Farofa”, ele tem orgulho em dizer que é autodidata.

Designer, ilustrador, fanzineiro, videomaker e artista, Farofa também é vocalista do Garage Fuzz, banda santista de punk/hardcore que está há mais de 20 anos na estrada e é referência no hardcore brasileiro. Deixou seu pseudônimo “Sesper” pelas ruas com adesivos e pôsteres, fez artes em camisetas para marcas de streetwear, fez capas de discos para grandes e pequenos selos, desenvolveu trabalhos em ateliês, faz parte de exposições e atua como curador. Também é membro do coletivo brasileiro Famiglia Baglione. Não, e não para por aí. Fez o roteiro, direção e edição do RE:Board, documentário totalmente sem fins lucrativos que conta com depoimentos de skatistas e colecionadores que acompanharam a evolução do skateboarding no Brasil desde os anos 70 e também de artistas que configuraram a estética dos shapes. Sesper também dirigiu o DVD e documentário do Garage Fuzz intitulado“Definitively Alive”de 2010. Ele acertou em cheio quando descreveu sua profissão em seu blog como “extreme mutant media”, segundo ele, seu próximo desafio: “O que eu quero no futuro é conseguir agregar todas as estéticas em uma só arte”. E quem duvida?

Dia 14 de junho o Garage Fuzz chegava em Porto Alegre para fazer um show no Opinião com o Dead Fish e a Campbell Trio. Aproveitei para falar com o Sesper sobre os zines, o skate, os vídeos, a música e as colagens em sua arte. A conversa durou 40 minutos, então relax in your favorite chair* aí e boa entrevista.

*álbum do Garage Fuzz de 1994.

Sobre as cores utilizadas nos teus trabalhos, eu gosto bastante do verde, do azul, tu trabalha com cores agradáveis.

Sesper: As cores da minha arte e a estética é o seguinte. Como as mensagens às vezes que estão embutidas ali nos quadros estão meio subliminares, eu utilizo as cores claras, tons pastéis assim pra deixar a coisa mais calma,sabe? Como já tem muito violência nas imagens, a cor eu procuro deixar ela mais simples para ter este contraste mesmo. A cor… ela não espanta a pessoa se a pessoa vê ela diz “ah, que combinação de cor agradável!”.  Aí quando ela chega perto que ela vê que aí tem gente enforcada, neguinho matando…

Tu já disse que está nem aí para o que as pessoas vão pensar em relação a tua arte, a Britney enforcada ou o Jesus de quatro. O objetivo mesmo é o chocar?

Sesper: Eu poderia hoje em dia fazer um lance mais comercial, pintar passarinho, que eu ia enxergar isso como um trabalho, saca? Ah eu tenho um trampo ali, pinto uns passarinhos, eu vendo, eu pago minhas contas e tá tudo certo. Só que eu acho que para continuar evoluindo eu tenho que… procurar sempre estar renovando a estética, a linguagem, e aí como tem toda essa influência das bandas de punk, e das influências antigas com tu mesma falou, do skate, uma época mais violenta, uma mensagem mais agressiva, eu acho que muito disso eu continuo fazendo para continuar tendo prazer no que eu faço. Para não ficar uma coisa metódica tipo, estou fazendo porque funciona e vende, aí eu vou fazer coisas “bonitinhas”. Até que quando eu estou muito feliz eu nem produzo, vou ouvir disco, vou trocar ideia com os meus amigos. Acho que quando eu estou em uma fase mais introspectiva, com algumas coisas na cabeça, é aí que eu paro e faço uma produção de arte.

 

“A cor, ela não espanta a pessoa. Se a pessoa vê ela diz “Ah, que combinação de cor agradável!”.  Aí quando ela chega perto que ela vê que aí tem gente enforcada, neguinho matando…”

Tu tem banda, faz arte, colagem, zine, vídeos. O que surgiu primeiro na tua vida, foi o gosto pela arte ou pela música?

Sesper: Foi a música que eu acho que comecei a ouvir som em 1982, quando o Kiss e o Van Halen vieram no Brasil a primeira vez e depois teve o Michael Jackson , meu primeiro disco de música foi o “Off the Wall”, e teve Rock In Rio e aí logo que surgiu o Rock in Rio eu comecei a pirar em metal… de 85 para 86 eu comecei a fazer street skate em Santos, São Paulo, aí já comecei a ouvir punk, e aí a partir deste período o meu gosto mudou. Acho que é a sequência é música, surf, skate e a arte… e aí mais música… mais skate…(risos)

É uma soma de tudo então, do surf, da música, do skate. Tua arte deve muito ao skate.

Sesper: Sim,eu acho que sem o skate, sem todos os caras de surf que moravam em Santos, que passavam por lá…minha arte vem daí. Quando a gente começou a andar de skate existiam as rixas da galera mas não era uma coisa agressiva, todo mundo acabava se entrosando porque Santos era uma cidade litoral, todo mundo cresceu junto, todo mundo continuava amigo , não era porque um escutava metal ou o outro escutava reagee ou o outro surfava ou andava de skate que tinham divisões, as galeras eram juntas.

Tu acha acha que hoje em dia isso não acontece?

Sesper: Não, nem ferrando. Hoje em dia todo mundo escuta de tudo  mas eu acho que fica uma coisa mais segmentada. As pessoas procuram mais quem elas se identificam apesar de gosta de reggae. Mas essa época não.  Era o rasta, andando com o skinhead, com o cara que era punk, com o cara que era metal,com o cara que era skatista. Às vezes eles poderiam nem ter um entrosamento tão bom mas andavam juntos no mesmo bar, nos mesmos lugares, até porque não tinha tanta opção.

A tua primeira banda foi de metal e se chamava Assepsia. Quanto tempo durou, como foi esta época?

Sesper: O Assepsia foi uma banda bem influenciada ali na época quando o Sepultura lançou o Esquizofrenia, nesse período a gente tocava esse estilo de thrash metal e eu escutava Kreator, Sodom, Nuclear Assault essas eram as influências, isso era 87. Aí depois a que a gente acabou a Assepsia, metade da banda montou outra banda de hardcore que era o Ovec que aí já tinha o Daniel na bateria que é do Garage Fuzz, o Fabrício até tocou nas formações finais, aí com o fim do Ovec eu fui também tocar com o Fabrício em uma banda chamada Psychic Possessor,aí esta banda acabou e a gente montou o Garage Fuzz em 1991 já indo para um outro estilo,a gente já escutava Hüsker Dü,a gente vinha do punk cantado em português, aí depois nesta transição dos anos 90 a gente começou a escutar Hüsker Dü, um monte de banda australiana, Hoodoo Gurus… Descendents…

A primeira vez que ouvi Garage Fuzz achei que fosse gringo.

Sesper: A soma disso é muito ensaio, porque  a banda ficou muito tempo ensaiando, antes mesmo de lançar a demo… e a gente teve também muita influência,tivemos sorte de nascer em Santos e ter muita loja de disco, estas lojas acabavam influenciam o nosso gosto,tinham grana e traziam discos, nos anos 80 tinha muita loja de disco importado, Santos por ser porto, também vinha  muito disco novo, a gente recebia e trocava muito disco. A gente mandava para a Europa, para os Estados Unidos discos de punk e metal brasileiro e pedia os discos que a gente queria e não tinha na época. Então essas coisas eu acho que essas coisas fizeram a gente ter um know-how em uma época que era mais difícil.

Foto no dia da entrevista, 14/06 no Opinião Porto Alegre. Foto por Christian Muhlbach

O Garage Fuzz começou em 1991 e vocês acabaram lançando o primeiro disco só em 1994. O que vocês fizeram neste três anos, ficaram trabalhando no disco?

Sesper: Sim, gravando várias demos, fizemos um monte de show, mudamos a formação em algumas partes, entraram dois guitarristas diferentes, eu fui pro vocal, saiu o primeiro vocalista, e aí foi rolando. E a gente foi ensaiando bastante. Um pouco antes do primeiro disco a gente gravou várias músicas, sabe, do Relax In Your Favorite Chair mesmo, a gente fez umas pré-demos… que não tinha nem as melodias direito.

O que tu queria dizer quando falou que os projetos do Garage Fuzz deveriam ser mais acelerado e a arte menos acelerada?

Sesper: Eu acho que não é uma culpa muito minha! (risos). Acho que a nossa criação ela demora, cada disco tem de cinco em cinco anos, de quatro em quatro anos… eu acho que o ideal seria a gente fazer a coisa na metade do time disso. Mas no final das contas eu acho que sai como tem que ser, como tu mesma disse “Ah, tá gringo”, é porque ficou estes quatro anos desenvolvendo.

E sobre as letras, eu sinto bastante introspecção e são bastante abstratas.

Sesper: Eu falo bastante sobre coisas que acontecem com a gente. Até que as do EP novo são mais diretas, as pessoas vão pegar e vão entender qual é a situação que está acontecendo. E também é muita maconha para fazer estes discos, então fica tudo meio turvo. E quando eu falo muito, é muita mesmo! (risos)

 

O teu primeiro trabalho com zine foi um zine de thrash metal chamado Slaughter Zine? Quantas edições teve?

Sesper: Era na época anos 80… tinha um programa que se chamava Comando Metal em São Paulo, programa de domingo, quem fazia era o dono da AudioStock e nesse programa ele tocou, seilá, Guns’n Roses antes de todo mundo, o disco do Metallica antes de todo mundo, era um programa de São Paulo cabuloso e passava domingo a noite e putz… eu devia ter quinze, dezesseis anos. Não tinha mais de dezessete anos. E ficava fazendo zine à noite, ficava ouvindo o programa. Eu fazia o zine com caneta bic, ficava fazendo as resenhas bem pequenininhas com caneta bic, ficava vendo o programa e fazendo. Não era com máquina de escrever porque eu não tinha. Sobre as edições…não, nem tenho mais. Fiz umas duas edições. Era ofício, eu pegava revista, zine, xerocava, eu repassava a informação que eu tinha. Se eu tinha um zine de um amigo, se gostava de algo do zine dele eu pegava uma foto e refazia a matéria que tinha no zine e dava o crédito. Esse primeiro zine era meio que isso.

A tua paixão por colagem pode vir deste tempo. Tu retirava elementos de outros zines para fazer um outro.

Sesper: Certo! Hoje em dia até alguns zines que eu fiz eu recorto eles e ponho em quadro, coisa antiga. Uso selo, carimbo, coisas de carta. Tudo que eu colo são coisas que eu guardei. São coisas que eu guardei durante muito tempo.Os 70% do acervo de material que eu uso são coisas que eu tenho desde 1985.

Então o primeiro contato com colagem que tu teve foi através deles?

Sesper: As colagens, na realidade a primeira vez que tive mesmo contato com elas foi na necessidade de fazer os cartazes de shows. Eu precisava fazer um cartaz de show do Garage Fuzz, as colagens mais técnicas foram estas, as de cartazes de show. Como era uma colagem que tinha que alcançar um público, não era uma colagem que eu fazia só por fazer, tinha que chamar atenção também  por ser uma banda nova, então eu dava um gás legal assim nessas colagens de cartaz. Mas eu só voltei a fazer colagens há sete anos atrás porque um dia cheguei e tava a minha filha na primeira ou segunda série fazendo colagem. Aí pensei “Putz, preciso voltar a fazer colagem”. Fiquei vários anos sem fazer colagem, eu só colava pôster na rua, adesivo…mas não era uma composição artística, que tinha elementos. Na real eu ainda faço, na real eu não vejo tanto assim hoje porque eu sou remunerado por isso, mas eu fazia colagem por prazer, eu nunca cheguei e disse “Ah eu vou ser artista, vou ganhar um dinheiro, vou estudar”. Eu sou autodidata. Acredito nesta de fazer porque você está gostando da coisa, indiferente de alguém dizer que está bonito ou feio, sabe? Minha mãe aprendeu a pintar também sozinha.

Ela é artista?

Sesper: Não. Ela pinta por prazer, por hobbie. Paisagem, assim, coisas que ela gosta. Pinta porque ela gosta. Tecnicamente é uma tiazinha que pinta, eu vendo ela fazer eu fui pegando alguma influência.

Sesper. Foto por Fábio Bitão

“Para mim o que importa é o processo até o fim do lance. O final para mim é o final.  É que nem uma padaria, tá lá o bolinho confeitado. Eu gosto do desenvolvimento, do processo.”

Tu já disse que conheceu um tipo de arte bem mais underground e ter vivido isso foi bom, que tu não conhecia artes do tipo Bauhaus e não se envergonha por isso. Li que tu curte as artes tipo as do Fred Otnes.

Sesper: Bauhaus pra mim era banda de pos-punk né? (risos) Depois que eu fui pegar o livro. Eu nem gosto de ver muita arte, ficar pegando livro pra ver. O Fred Otnes ele é bem depressivo, bem escura, bem pesada. Ele foi um artista que faz muita transferência. Eu não gosto muito de…a arte finalizada, ela não me atrai. Eu gosto do processo. Para mim o que importa é o processo até o fim do lance. O final para mim é o final. É que nem uma padaria, tá lá o bolinho confeitado. Eu gosto do desenvolvimento, do processo.

 

O que tu diria para alguém que curte colagens e nunca fez?

Sesper: Tem que ter muito papel. As dicas? Acha já alguma coisa que gosta. Tu gosta de letra? Guarda muita letra. Ah… eu gosto de cara, de pessoa. Aí tu pega e  guarda muita carta, recorta, guarda.  Depois que tu já tem este material aí você começa a fazer umas composições. Eu acho que não tem muita regra na colagem. É uma coisa tão livre.

Vi uma arte tua lá na Galeria LOGO, tem uns relevos, não parece muito simples.

Sesper: É… mas aí entra técnica. Tem diversas técnicas. Hoje em dia o meu desafio é pegar todas elas e colocar em um quadro só. É que como eu vou fazendo muito por instinto eu não penso “Ah este quadro eu vou fazer isso.”. A coisa vai saindo. Até por isso eu acho que tem tanta camada… tanto penduricalho, vai indo, vai indo… nunca acaba!

E quando tu cola tanta coisa, vai colando uma em cima da outra, não acaba que tu se arrepende por ter colado algo que acabou “sumindo” em meio a tanta sobreposição de elementos?

Sesper: Sim! Some… e tem algumas vezes que eu até me arrependo do que eu tapei, fico pensando que eu podia ter feito outra coisa com aquilo. Rola direto. Mas este que é o desprendimento da coisa. Uso bastante material antigo… dos antigos,eu vou pegando, lixo na rua, coisa que eu vejo que tem a ver com coisas que acho que entra na minha estética. Estes dias achei umas notas de dinheiro de uma fantasia de carnaval jogado na rua, aí eu recolho. Talvez se eu tivesse visto uma outra fantasia de carnaval que não tivesse o dinheiro eu não teria recolhido. Sacou? Acho que estes elementos que acabam chamando atenção.

Tu morou com o Carlos Dias (Againe, Polara) nos anos 90. O que tu acha que a arte de um influenciou na música do outro? Vocês dois são muito ligados à arte, música…

Sesper: Ah, o Carlinhos é um cara espontâneo. Acho que tudo que ele fez na vida não teve nada forçado, sabe? Ele é o que ele é ali. As artes dele representam bem o estado de espírito dele. Nessa época que a gente morava junto, a gente não tinha dinheiro, a gente rachava um aluguel que não era tão caro em três pessoas e nesse espaço a gente ficou criando muito, a gente pintava, pintava, pintava e ficava vendo uma pilha de desenho depois. ficava olhando o que tinha feito. A gente já tinha banda, ele tocava com o Againe, eu tocava com o Garage Fuzz. E ele fazia as artes das capas, eu também fazia as da minha banda, então tinha esse intercâmbio.

Eu li em uma entrevista que tu não fazia tanta questão de ter os vinis, como assim? O pessoal da tua geração pira nos lps!

Sesper: Não, peraí! Não é isso, eu tenho vinil pra caralho! Seguinte, eu vendi toda a minha coleção, eu acho que é o seguinte, eu não consigo ficar ouvindo os discos que eu tinha há 20 anos atrás, eu não preciso ouvir um 7 seconds, eu compro agora coisas que eu não tinha. Não,eu gosto,eu tenho uns quintos vinis novos, que eu comprei nos últimos dois anos, a única coisa que eu faço quando eu chego num lugar… por exemplo, eu desci aqui no hotel,a primeira coisa que eu fiz foi ir na loja de disco do lado do hotel. (risos) Eu compro coisas que eu não tinha! Por exemplo, eu não quero ter Circle Jerks, Bad Brains, isso já tá aqui na cabeça tá ligado? Eu tinha umas coleções que fui vendendo, sempre to vendendo… chega uma hora que a coleção existe,ela é legal, ela tem um monte de disco raro, mas não é uma coisa que eu vou me apegar ao material. Eu quero escutar, não quero ficar acumulando. Aí eu procuro pessoas que sabem o que é, que vão gostar de ter o disco e aí vendo. E vendo o lote.

Tu acha que as pessoas acabam deixando de reparar nas capas dos álbuns hoje e ficam mais focadas no youtube?

Sesper: A música virou isso. Mas acho que é a velocidade das coisas de hoje em dia. Antigamente tinha mais uma compreensão do conceito da coisa, né? Do porquê aquela estética chegava naquilo . Hoje em dia não, é muito mais simples. O cara quer ser alguma coisa ele entra no eBay e compra, a roupa, o disco. Antigamente não, a gente tinha que conquistar estas coisas. Não que eu seja contra, isso não. Eu não gosto da parte que enxuga a informação e joga o que tem que ser consumido.

“Eu não gosto da parte que enxuga a informação e joga o que tem que ser consumido.”

Eu vi que tu faz algumas colagens em vídeos também, de imagens, tu deve curtir o Alien Workshop, levar como influência.

Sesper:  Báaa, o primeiro vídeo da Alien é animal, fudido! Vídeos de skate, sim. Não os vídeos dos anos 80 porque a gente olhava os vídeos dos anos 80 mais como uma galera que eram os ídolos. Eu gosto mesmo da fase do skate dos anos 90 que teve aquela “peneira” mesmo e só restou quem gostava mesmo do lance.

Quem representa o skate pra ti?

Sesper:  Que representa o skate para mim? Para mim é o moleque que tá começando a andar, que tá pegando e dando os primeiros impulsos. Para mim é o verdadeiro espírito da coisa, é o descobrir, ao ter a descoberta do primeiro ollie, eu acho que são as sensações que valem no skate e quando a pessoa sente mesmo isso e ama o negócio ele não precisa dar umas puta manobra, ele simplesmente descendo uma ladeira e se divertindo já é o verdadeiro espírito de andar de skate. Skate de rua é na rua. Street skate não é em pista. O street skate é pra dar batida na parede mesmo, pular os buracos na rua mesmo.

Tu viu aquele site da skatemoss? O que tu acha deste tipo de customização?

Sesper:  Não vi, mas eu gosto destas customizações em shapes. Shape… acho que é um suporte. Quando ele sai do formato shape mesmo, já o outline… já muda, já não gosto muito. Pra mim é o tradicional, ou anos 80 ou é anos 90. O formato. Quando eu vejo aquele skate dos Simpsons, lá o Santa Cruz, eu olho, acho engraçado por uns dez minutos aí quando eu olho de novo penso “Puta…fudeu…o bagulho tá desandando.”.

 

“Eu gosto mesmo da fase do skate dos anos 90 que teve aquela “peneira” mesmo e só restou quem gostava mesmo do lance.”

Sobre o documentário RE:Board, tu acabou não lançando o material físico não pela burocracia mas para ser um material livre, sem intermediação de nenhuma produtora?

Sesper:  Ele foi feito todo no meu quarto, a gente ficou uns três anos fazendo, eu editei. Eu tive a ajuda de varias pessoas para colher o material e chegar até determinadas pessoas que era difícil entrevistar. E  a viagem desde o começo era para ser uma mídia que fosse distribuída gratuitamente, em nenhum momento eu virei para alguém e disse que ia vender o DVD ou fazer uma mídia… e caso tivesse alguma lei de incentivo do governo, porque a gente ia fazer isso para ser uma mídia gratuita. É um projeto que ainda não foi finalizado. O RE:Board eu enxergo como sendo ainda como o primeiro braço da história, né? Acho que agora que a gente já catalogou as peças a gente tem que dissecar mais sobre cada uma e em vez de fazer mais um vídeo, agora partir para uma publicação impressa. Então no futuro, se o DVD for se tornar uma parte física do RE:Board, vai ter uma parte que é o livro com processo que vai ter também alguns anexos que são coisas que a gente fez em Los Angeles, em Porto Alegre na TRANSFER.

Se tu tivesse que fazer outra parte do RE:Board além das que já estão disponíveis no teu vimeo e tivesse que refazer o setlist, que bandas tu colocaria? (Soundtrack: Eu Serei a Hiena, Elma, Bodes e Elefantes, M. Takara, Apolonio, Gigante Animal, Presto?…)

Sesper: Eu não trocava nada. Eu acho que ali dificilmente a gente ia conseguir. Foi sorte dos dois anos que ficamos pesquisando, tinha um monte de banda boa Roland na época. A gente pediu para as bandas mandarem a versão instrumental da música. Sabe? Tem banda ali que não tem música instrumental e a gente tem eles sem as letras, a Gigante Animal tem letra, a Apolonio tem letra…a gente pediu para o Eu Serei a Hiena mandar as músicas sem o vocal também.

Tu falou que já dormiu em papel em galeria de arte lá em Los Angeles. Quando foi isso?

Sesper:  Foi em 2009. É… era a primeira vez que eu tava indo fazer exposição. Não tinha onde dormir, só tinha um apto que não tinha nada e a gente dormia nos papelões. E mesmo o período que a gente esperou para fazer a gente dormia no carro da garagem do estacionamento da galeria. Essa adaptação das situações é graças à banda, coisas que a gente viveu com a banda foram fazendo a gente se preparar e quando aparecesse este tipo de barreira no caminho, a gente leva na boa. Não tem onde dormir, dorme no chão mesmo, foda-se.

Teve aquela exposição na loja TheRecords em São Paulo “O quanto de arte você aguenta?”. Se tu não tivesse escolhido a Negative Fx, que outra banda tu teria feito?

Sesper:  Na real eu ia fazer o Poison Idea “Feel the Darkness”.  Era uma cara com uma arma na frente. Mas aí duas pessoas já tinham feito e aí eu acabei fazendo a do Negative Fx porque já foi uma capa que eu já tinha mexido muito e já tinha usado.

The Records SP, 28/04/2012. Negative Fx por Sesper

Na descrição do teu blog tu colocou “Extreme mutant media”. É por causa do skate, da arte, dos vídeos, das colagens, da música?

Sesper: É, mas é isso mesmo. Hoje, atualmente não tem como eu ter a possibilidade de desenvolver isso. Mas o que eu quero no futuro é conseguir agregar todas as estéticas em uma só arte. Ter o vídeo, o áudio, a colagem de áudio em um só trampo.

Sobre os teus outros projetos de bandas, tu teve o Ovec, o Psychic Possessor, Safari Hamburguers, Paura, Notwork, Introspective, Lofi Experiments, Vallejo x Sunset, 5 Gas Question, Fliptot. Me conta um pouco desses projetos aí!

Sesper: O Ovec é de 89. O Psychic Possessor é uma banda de hardcore de Santos de 1990, de 1988 até 1990 ela existiu e aí tocou várias pessoas, eu e o Fabrício tocamos e aí depois eu fui ser vocal do Safari Hamburguers em uma época que já tinha até o Garage Fuzz mesmo, na real o Garage está aí no meio. E o Safari eu gravei um disco que era o Good Times e o Garage Fuzz gravou o Relax In Your Favorite Chair aí. Neste intervalo eu meio que cantei aqui uma época com o Paura, a gente montou meio de projeto, assim. O Carlos Dias está no Lofi Experiments que era um projeto lofi que a gente fazia na casa onde a gente morava tocando uns chinelo nas  caixa de bateria, violão… aí o Notwork é mais atual já é música eletrônica que a gente fazia minimal no teclado. O Introspective foi um projeto de dub que eu fiz de de 1999 a 2011, tem um disco também mas é bem dub, dub step, assim. Vallejo x Sunset foi um projeto de 2009 que é eu o Sérgio Lopes, eu toco guitarra e a gente faz uma coisa meio Tommy Guerrero, meio bem instrumental.  E o 5 Gas Question foi um projeto que eu gravei em 1997 no estúdio do Fernando Sanches, ele tocando bateria. Ele nunca tinha tocado as músicas. Eu mostrava pra ele na hora, ele tirava na hora e nessa hora que ele tava tirando a gente já gravava e o projeto é isso. O Fliptop foi quando o vocal do Seaweed ficou aqui em 99, ele ficou uns dois ou três dias em casa, a gente fez esse projeto que são só duas músicas, é um vocal bossa nova e eu faço uma música meio dub, assim.

E tu nunca tentou fazer rap?

Sesper: Não, eu rimando é horrível! (risos) Eu consigo escutar bem o rap, mas eu rimando…Eu escutava hip hop, mas nunca foi o que eu saí para fazer, assim.

Queria que tu deixasse um recado final, para quem faz zine, quem tem vontade, qualquer coisa, o espaço é teu. (Esta entrevista certamente vai parar em uma máquina de xerox)

Sesper: Para todos os leitores do No Make Up Tips zine eu continuaria fazendo fanzine porque fanzine é uma mídia que é verdadeira. A pessoa que sempre tá fazendo na maioria das vezes está passando os sentimentos mais sinceros possíveis, do que acredita no momento. É uma mídia que é difícil de ser desenvolvida, ela demora, ela requer um cuidado, não é uma coisa tão fácil. E queria continuar apoiando todo o pessoal que faz fanzine, eu gosto muito de fanzine, tenho muitos em casa. Conheci muita banda por fanzine. Ainda acho que continua sendo o formato de mídia mais sincero e legal de se guardar porque ele continua ali durante anos.

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Dead Fish no Rio Grande do Sul / Junho 2012

Na quinta-feira do dia 14 de junho, o Dead Fish chegava em Porto Alegre para fazer um show no Opinião com as bandas Campbell Trio e Garage Fuzz. Acompanhei a banda como estagiária da assessoria de imprensa do show por um dia. Além dos ótimos shows como o da Campbell Trio e o Garage Fuzz (que já fazia algum tempo que queria ver), ainda descolei uma entrevista de 40 min para o zine com o Sesper (provavelmente eu poste logo por aqui) e no sábado, um show extra do Dead Fish no Garagem Hermética, histórico, tocando Sonho Médio na íntegra.

Alguns registros da quinta-feira e do sábado:

Image

Foto turista na Ulbra de Canoas

bastidores do Garajão Ulbra TV com Dead Fish / foto por mim

bã, meu amigo Wender trabalha muito! (haueaheue brincadeira)/ foto por mim

Wender tirando uma folga enquanto olhava o Dead Fish.

Dead Fish e Cristiano (Solid Produtora/ direita) – bastidores Garajão Ulbra TV / foto por mim

Passagem de som da Campbell Trio no Opinião/ foto por mim

show da Campbell Trio / foto por mim

Garage Fuzz / foto Christian Muhlbach

Dead Fish / foto por mim

Entrevista Alexandre Sesper/ Garage Fuzz.

Show histórico do Dead Fish no Garagem Hermética / Porto Alegre. 16/06/12 foto por mim

setlist do Dead Fish no Garagem Hermética

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Entrevista: Rodrigo Lima (Dead Fish) /dvd 20 anos

Rodrigo Lima. foto por Banzi http://www.flickr.com/photos/banzi/

Entrevista: Rodrigo Lima (Dead Fish) por Gabriela Cleveston Gelain.

Eu vi o Fanzineiros do Século Passado parte II, documentário do Márcio Sno. Tu diz no documentário que os 20 anos de hardcore foram mais do que a tua faculdade, da qual metade foram os fanzines. Eu queria saber o que tu tem para falar destes 20 anos que foram mais do que a tua faculdade, que lições tu tirou disso?

Como eu venho de uma família que todas as pessoas se formaram na faculdade e tal, era um requisito. E paralelamente a eu estar na faculdade eu já estava em um cenário de música. Com o tempo, eu fui percebendo que estar na cena hardcore, não empíricamente falando, científicamente falando, era prolífico… mas para mim, individualmente, era um crescimento muito grande. Eu sempre estava em um lugar diferente, com pessoas diferentes, que pensavam diferente. Essa troca me fez crescer muito mais rápido do que algumas pessoas que estavam ali na faculdade, na ”torre de marfim”, estudando a coisa na teoria, entende? Eu acho que muito do cenário de punk e hardcore torna a vida acadêmica uma coisa meio enfadonha porque você acaba aprendendo tudo muito na prática, tudo muito mais no dia-a-dia,a  coisa é muito mais na pele…é intenso.

Essa visão que tu tem do cenário independente, tu falou em algumas entrevistas que aqui no Brasil tem extremos, ou a coisa funciona de uma maneira, ou seja, muito bem…ou ela se perde. Queria saber qual a visão que tu tem depois de 20 anos que tu cresceu com a banda, que tu continuou nesta trajetória com o Dead Fish.

A nossa sorte ou nosso azar nestes 20 anos, aí você tire sua conclusão, é que a gente saiu de um extremo e foi para outro, entendeu? E isso nem todo ser humano consegue suportar, não é algo que individualmente as pessoas consigam suportar porque você acaba vendo tudo e vendo que tudo tem prós e contras, tudo tem altos e baixos, tudo tem gente boa e gente ruim. Eu acredito que no independente, a questão da inocência e de ser mais coração talvez torne  a coisa mais intensa e para mim, até mais relevante… mas o que acontece é a falta de recurso e a falta até de cabeça mesmo, a nossa geração era uma geração que tinha um pouco menos de informação que a tua, então muitas vezes o independente pecava em coisas bobas, nessa coisa do diálogo não fluir mais rapidamente e a gente perdeu muito tempo. É uma coisa que tu não vê no mainstream, onde tudo é muito menos coração e muito mais dinheiro, mas se as pessoas, elas veem que a coisa vai andar para a frente, elas vão lá e fazem. Não pelo coração, mas pela grana que vai render aquilo ou pela fama que vai render aquilo, etc.

Eu acho que o Dead Fish é um pós-doutorado nestes dois extremos. E o melhor, ele conseguiu criar um meio para si, conseguiu criar um caminho só da banda. Não só o Dead Fish. A gente é parte de uma coisa toda. Eu acho que a gente tá meio na linha de frente para ter criado esse meio, que nem todo mundo consegue vislumbrar hoje, infelizmente, mas que é um meio que não é nem um extremo nem é o outro. É um caminho que acaba sendo “surfar” a onde do que é punk e hardcore, saber entender a mídia de massa. A gente nunca soube usar muito bem essa mídia, mas a gente já entende mais ou menos do que se trata. É um meio que eu acho que mais bandas podem chegar, mais revistas podem chegar, mais coisas… mais produtos, falando de produto no sentido mais amplo, não só no sentido de venda, em um produto mais profundo do que a mídia de massa e menos específico do que o underground local, entendeu? Eu não consigo explicar porque eu estou envolvido há tanto tempo, é difícil você se distanciar.

Querendo ou não, o underground é um mercado, um mercado mais sincero, que não visa o lucro e talvez ele se perca por aí muitas vezes.

E até às vezes não visa a perpetuação, entende. Eu acho que se as pessoas no meio independente tivessem mais esta visão e soubessem mais dar as mãos umas para as outras, independente de estilo… eu falo isso há vinte anos, é chatíssimo, eu mesmo não suporto mais falar isso! Mas se você dá as mãos independente de estilo você consegue criar um meio. Eu acho que a intenção primeira do Fora do Eixo era isso, conseguir dar as mãos para um mercado que é muito prolífico no Brasil inteiro. Só que a gente não tem esta capacidade ainda. Não sei se é porque a gente é sul-americano, não sei se é porque a gente é menos educado, não sei se a gente é egoísta demais, não sei se é porque a gente não tem nada e qualquer coisa a gente se apega demais, não consigo explicar direito não.

Coletânea Faces do Terceiro Mundo  (2002). Arte: Flávio Grão http://www.flickr.com/photos/flaviograo

Eu queria relembrar um pouco o Faces do Terceiro Mundo, aquela coletânea que contava com Dead Fish, Street Bulldogs, Reffer e Noção de Nada que este ano está fazendo 10 anos. Eu li que tu falou que deveria sair um LP desta coletânea, há alguma possibilidade?

Acredito que exista a possibilidade,mas a gente precisa correr muito atrás! Até porque existem ex-integrantes, uma banda chamada Street Bulldogs que tem um vocalista extremamente chato,talvez tão mais chato do que eu (risos), a gente tem que pedir autorização para todas as bandas, para todos os ex-integrantes, achar alguém que prense, uma coisa que fique bonita, então é um longo trabalho. Talvez seja igual ao DVD de 20 anos do Dead Fish que saiu no vigésimo primeiro ano (risos)

Deveria ter saído no final do ano passado não é?

Deveria ter saído em dezembro… mas a gente só conseguiu arrumar a gravação para novembro.

Por que foi escolhido o Circo Voador no Rio de Janeiro para ser gravado o DVD?

Na verdade calhou de ser o Circo Voador, a gente sempre teve apresentações muito boas lá. O cara que está empresariando a gente é do Rio de Janeiro e conhecia o pessoal ali do Circo, o local tem uma representação muito grande para a música e para o rock brasileiro, assim como o Opinião tem para vocês. Eu acho que o Circo Voador é importante para um cenário amplo de música rock brasileira, e aí surgiu a oportunidade e nós falamos “Nossa, seria clássico, seria lindo!”. As pessoas do Espírito Santo estão morrendo de raiva da gente porque a gente não foi comemorar os 20 anos  onde a gente nasceu, só que a gente não tinha como reunir duas mil e tantas pessoas, pagar uma parte do DVD, fazer uma imagem boa, com uma equipe legal, sem ter que pagar muito por isso.

Eu acho que as pessoas deveriam entender isso…

Capixaba não costuma entender isso muito não. Capixaba é meio tosco igual a mim, assim. (risos) Mas beleza, depois a gente vai lá, estamos com um projeto de fazer um filme para o ano que vem e o show maior vai ser lá.

Eu queria que tu falasse um pouco do lançamento do DVD. Como as pessoas vão poder adquirir?

Vai ter a SpiderMerch, vai ter o site da Dec que vai distribuir. Mas no dia do show de Porto Alegre é só no show de Porto Alegre que vai ter. A gente vai pegar os DVDs 3 dias antes, então Porto Alegre é o primeiro show de lançamento do DVD do DEAD FISH no Brasil. As pessoas em Porto Alegre provavelmente serão as primeiras pessoas a adqurirem. Depois tudo bem, acho que dois dias depois do DVD lançado provavelmente já vai ter na internet né? Mas as pessoas em Porto Alegre vão ser as primeiras a comprar lá no nosso merch e vai ter página online,mas isso só entra uma semana ou oito dias depois do lançamento, depois de sair da fábrica.

E como vai ser o DVD? Ele só tem o show ou também conta com depoimento de ex-integrantes do Dead Fish?

Não,o DVD é o dia. A gente só falou sobre o dia, do 11/11/11, o show no Circo Voador. E a gente fez entrevistas, dias depois falando sobre a banda, é uma coisa bem geral, já que a gente quer lançar um filme com 4 ou 5 shows, em quatro capitais do Brasil que a gente está a duras penas escolher, aí sim a gente vai falar da história, contar as histórias antigas, colocar vídeos antigos, etc.

Eu queria saber se tu tem alguma dica de banda, filme ou algo recente que tenha visto?

Poxa, eu sou um velhinho chato. Eu ontem acabei de ver um filme do Martin Scorsese que se chama Mean Streets (1973) que é um livro, talvez o primeiro filme longa do Robert De Niro, eu recomendo para todo mundo. É um filme engraçado, ao mesmo tempo que é trágico. Bandas eu recomendo as bandas daí, o pessoal da Campbell Trio

( http://campbelltrio.bandcamp.com/ )

Ouvi falar que eles (Campbell Trio) abririam o show de vocês. É verdade?

Sim,eles vão abrir a nosso pedido, foi pedido nosso, a gente quis que eles abrissem.

Eu já fiz esta pergunta há dois anos atrás quando te entrevistei para o meu fanzine (entrevista aqui: https://subterraneidades.wordpress.com/2011/10/27/40/)  mas eu vou perguntar novamente para os ouvintes. Quais foram os principais escritores que te motivaram a escrever as letras do Dead Fish?

Escritores? Cada disco tem uma influência. Eu acho que o “Zero e Um” tinha muito daquela literatura situacionista, Hakim Bey, Umberto eco. “Um Homem Só” talvez seja um resgate de umas coisas chatas do Nietzche, eu não tenho muito orgulho desse CD. Já no “Contra Todos” eu tava lendo muita gente de São Paulo, estava lendo Oswald, Mário de Andrade, Roberto Piva, já estava focado em uma literatura mais local. A gente não pode deixar de falar das bandas também, né? Acho que desde o O homem só o Propagandhi é a banda que mais influencia a banda.

Como foi tocar em Santa Maria (em 2010), no meio de pessoas que tu já conhecia, o pessoal da Tijolo Seis Furos, o DJ Maxx e com os fãs que trouxeram vocês para cá?

Putz, é uma pena que a gente não vá para Santa Maria de novo. Foi muito legal aquela vez tocar apesar da gente ter chegado em cima da hora. É uma pena a gente não ter podido ficar mais na cidade, porque era uma cidade que a gente nunca tinha tocado no Rio Grande do Sul e a gente chegou atrasado por causa de um caminho errado que o motorista fez. Na hora do show foi muito legal, foi muito intenso e divertido. Gostei muito do salão ali (Skato Bar). Foi um show grandão, para cansar todo mundo, inclusive a gente!

Eu queria que tu deixasse um recado para os nossos ouvintes. Fale o que quiser!

Ah cara. Eu vou lançar uma frase de tio chato. Eu queria que a tua geração, que as pessoas que tem a idade de vocês despertem, sabe. Não se percam muito no mundo virtual, comecem a fazer algo mais real. Apesar de ser mais chato, apesar de ter que lidar mais com as pessoas, é algo que lá na frente vai ser muito mais relevante do que suas conversas na internet. Façam. Façam bandas, façam selos, estudem, façam alguma diferença. É isso.

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FUTURO no Rio Grande do Sul em Junho / 2012.

FUTURO no Rio Grande do Sul em Junho/2012.
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foto por Mateus Mondini
 Certa vez, escrevi uma ‘resenha’ bem curta aqui sobre um cd que havia ganhado, da Futuro/B.U.S.H no ano passado e até postei uma foto do encarte, ainda da antiga formação que contava com o Kalota (2003-2011) nos vocais. Agora quem assume a voz é a Mila (The Pushmongos www.myspace.com/thepushmongos ).
Pois então, fiquei sabendo que esta banda está para vir aos nossos lados… seguem das supostas datas: durante os dias 7 , 8, 9 e 10 de junho, xs paulistanxs da banda Futuro/BUSH (punk/hardcore) tocarão 4 shows no Rio Grande do Sul (informações via Daniel Villaverde, selo Punch Drunk). Em breve serão divulgadas as datas e as cidades! Aguardando ansiosamente pelos shows.
Então, para conferir 3 novos sons da Futuro do novo 7” Ep de 2012 com a Mila, só sacar este link:

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Destrói Você  (letra do novo som disponível no link acima)Quanto mais você quer melhorar
Mais cai sobre você
Não conseguirá suportar sua consciênciaEla volta sempre à noite
E não te deixa dormir
Sem ela, não há razão para viver assimAs mentiras continuam
Tudo que é dito ou é feito
Não são por acaso ou pura sorte
São apenas planos,
Planos que você constrói
Mas neles não há nada certoSó destrói a mim, destrói você
Será difícil por um fim…Não, não pode mudar
Mas não consegue parar…

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por Gabriela Gelain.

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